Mais experiências na Mongólia
da redação, Manoel Morgado
18 de julho de 2011 - 17:15
 
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PAISAGEM - Nas montanhas da Mongólia - Foto: Garry Morecky
 

Após alguns dias em Ulaan Baatar considerando o que iríamos fazer nas 3 semanas que tínhamos até o grupo chegar e irmos para as montanhas decidimos ir para um ger camp em um parque nacional próximo a capital e passar lá alguns dias. Pensamos em várias outras possibilidades, mas em um país como a Mongólia com distâncias imensas e deslocamento por terra tão precário onde a média horária com sorte é de no máximo 30 quilômetros por hora, onde não existe transporte interurbano e onde os vôos domésticos são caríssimos, acabamos descartando uma após outra possibilidade. Chegamos a pensar em ir para um grande lago ao norte, próximo a fronteira com a Sibéria, mas isso envolveria uma viagem de 3 dias de ida e mais 3 de volta e depois de nossa experiência com o Gobi decidimos que não queríamos viagens tão longas aqui.

Jalman Meadows é um ger camp, um conjunto de tendas de nômades para turistas normalmente com banheiros e um restaurante em uma grande ger, situada a três horas e meia da capital, inicialmente por uma estrada asfaltada sem grandes atrativos, mas depois por uma linda estrada de terra que margeia o rio Terelj por entre pequenas montanhas, pradarias intermináveis e ausência de cercas, divisões e pessoas a não ser aqui ou ali um ger isolado com uma família de nômades. Aliás, creio que este é o maior impacto que este país causa nos visitantes, os imensos vazios, os espaços abertos, a natureza intocada. Este parque nacional chamado Gorkhi-Terelj é uma imensa área de wilderness que se estende quase ininterruptamente até a Sibéria, habitat de cabras selvagens, leopardo das neves, águias, lobos e abutres.

Nosso acampamento consistia de 15 gers dispostos em um arco todos voltados para o sul como manda a tradição. Fossem gers de nômades do lado oposto a entrada estaria o pequeno altar budista. Tínhamos duas camas, um fogão no centro e uma pequena mesa. No centro do acampamento estava o grande ger restaurante e afastado dois banheiros. Também tinha um ger chuveiro onde se acendia o fogão a lenha e se esquentava a água (e o ger) para um gostoso banho de balde.

A idéia do lugar era não ter realmente nada específico para fazer então começávamos nossos dias com uma grande caminhada subindo uma das montanhas ao redor de onde após duas horas de caminhada dura tínhamos vistas lindas da área com nossos gers agora reduzidos a pequenos pontos no meio de um imenso verde e o rio serpenteando por entre as estepes. Enquanto subíamos, nos deliciávamos com a quantidade e variedade de flores do campo, nas mais diferentes formas e cores que cobriam todo o terreno. Os cheiros também nos deslumbravam, algumas com suave cheiro de mel silvestre, outras adocicadas como jasmim.

 
Campos de flores
   
 
Ger camp Jalman Meadows  
   
 
Nômade a cavalo  
   
 
Lisete e eu no Jalman Meadows  
   
 
Vista do ger camp do alto de uma das montanhas  
   

Voltávamos para o acampamento e nos deixávamos ficar nas cadeiras reclináveis em frente ao ger e aproveitei para me tornar um semi expert em história da Mongólia e principalmente da época de Gengis Khan, seu filho Ugedei e seu neto Kublai Khan. Apesar de ter aprendido na escola sobre esses personagens não tinha idéia da amplitude de suas conquistas. Gengis nasce em uma família pobre pertencente a uma tribo de pouca importância entre as muitas que constantemente se degladiavam em busca de dominância nas estepes. Perde o pai muito cedo e se rebelando com a tentativa de controle de seu meio irmão mais velho acaba assassinando-o as 10 anos de idade. Torna-se escravo por um período de ao redor de 10 anos (isto é um pouco controverso na história), mas consegue fugir e rapidamente assume a chefia de sua tribo e passa a conquistar outras. Seu maior trunfo foi de ser idolatrado por seus soldados e inspirar uma lealdade inabalável, ser justo para os conquistados que se submetem e ser implacável para os que não. Em poucos anos unifica todas as tribos sob sua bandeira e decreta uma série de leis para acabar com as lutas fratricidas que impediam a convivência pacífica entre as tribos. Aboliu a escravidão, o rapto de mulheres, prática comum para obter esposas se o homem não tivesse dinheiro para o dote e que inevitavelmente levava a revanches, e enfraqueceu a ligação que as pessoas tinham com sua tribo e fortaleceu a ligação com a nascente nação mongol.

Mas, este era apenas o começo de suas conquistas. Ao sul do Gobi estavam as maiores riquezas do planeta, os reinos chineses que detinham o comércio da rota da seda e para aquela direção ele dirige seus agora poderosos exércitos com táticas de guerra completamente revolucionárias. Se locomovendo em seus pequenos, fortes e velozes cavalos, sem infantaria para retardar seu avanço e vivendo do leite e carne de seus animais, eram capazes de vencer incríveis distâncias e surpreender seus adversários. Em pouco mais de 20 anos, e com um exército de não mais de 100.000 soldados e lutando com adversários com mais de 10 vezes o seu tamanho, criou o maior império que a Terra já tinha visto com centenas de milhões de pessoas sob seu controle. Seu filho e seu neto continuaram esta expansão conquistando o leste europeu, a Rússia e finalmente toda a China dominando assim um terço da população do globo com um império que se estendia da Hungria ao oeste, a Coréia a leste, a Rússia a norte e parte da Índia ao sul. Mas, a riqueza e o poder como sempre corrompem e o estilo frugal de Gengis Khan que viveu toda sua vida em um ger nômade e comandou suas tropas foi aos poucos substituído por palácios, generais comandando as tropas com o imperador a distância, e o mais fatal dos problemas, as lutas entre os filhos e netos nas disputas pelo poder. Em menos de 300 anos os mongóis voltaram a ser o que eram antes de Gengis Khan, tribos isoladas guerreando entre si nas imensas estepes da Mongólia.

À tarde tomávamos um gostoso banho, e aguardávamos o jantar vendo os lindos entardeceres. Assim passamos seis dias gostosos dias no campo.

Mas, muito tempo passei apenas pensando sobre a expedição ao pólo Sul e como viabilizá-la. Os patrocínios não apareceram e a campanha Adote um Km foi abraçada por queridos amigos que generosamente adotaram 137 quilômetros, mas isto nem de longe viabiliza o projeto que necessita de ao menos 500 km e mais uma soma minha e do Irivan. As doações continuam acontecendo, mas com o passar do tempo cada vez mais raramente. Mas, uma decisão já tomei, de uma forma ou de outra eu realizarei esta expedição. Mas, não há uma noite em que vários minutos se passem antes que eu consiga adormecer e os pensamentos são sempre os mesmos, como conseguir o necessário para que possa ir...

Voltamos então para a capital, desta vez para aproveitar esses dias para trabalhar em nossa nova programação para o ano de 2012. Como não temos casa e estamos viajando constantemente, uma vez por ano escolhemos um lugar para ser nosso escritório. No ano passado foi Bali. Aqui então alugamos um apartamento mobiliado com dois quartos, um banheiro e uma cozinha e lá passamos 10 dias em outra rotina. Acordávamos na hora que acabava sono, trabalhávamos até as 5 da tarde com uma pequena parada para o almoço, fazíamos dias horas de academia que ficava a meia quadra de “casa” e cozinhávamos um gostoso jantar.

Mas, depois destes dias de trabalho estamos prontos para o maior festival da Mongólia, a olimpíada das estepes, o Naadam, com competições de corrida de cavalos, arco e flecha e luta tipo Greco romana além do estrabólico esporte de arremesso de ossos de tornozelo de carneiro. Mas, isso é assunto do próximo boletim.
E o mais estranho é que estando no pais dos nômades, nós que somos nômades por excelência estamos parados e dormindo na mesma cama pelo mais longo período que possa me lembrar...


Estamos com o site praticamente pronto e com muitas novidades para o próximo ano que será assim:
Março – Trekking ao campo base do Everest
Abril/maio – férias ou um segundo trekking ao Everest (neste ano tivemos que abrir uma segunda saída já que a primeira lotou em novembro do ano passado)
Final de maio – trekking nos Atlas no Marrocos e viagem cultural ao Marrocos
Junho - Trekking no Kyrgystão e viagem cultural no Uzbequistão (uma só viagem combinando os dois países)
Julho – Trekking nas montanhas Altai na Mongólia
Agosto – Elbrus e em seguida Kilimanjaro
Setembro e metade de outubro – Escalada do Manaslu, a oitava mais alta montanha do planeta com 8156 metros
Outubro – Trekking ao Reino Proibido do Mustang – Nepal
Novembro – Trekking aos lagos de Gokyo e acampamento base do Everest