Extremos
 
COLUNISTA LISETE FLORENZANO
 
Viver o presente
 
texto: Lisete Florenzano
29 de junho de 2017 - 11:10
 
Kala Pattar (5.550m). Foto: Leonardo Maciel
 
  Lisete Florenzano  

Em abril tive o grande prazer de guiar mais um trekking ao campo base do Everest, no Nepal. Desta vez, indo pelo Vale de Gokyo.

Desde 2015 não ia para lá, já que em 2016 morei por 7 meses em Mendoza, na Argentina, para fazer um curso de guia de trekking. Estava com saudade do Nepal, gosto muito daquele país. E simplesmente adoro o trekking ao Everest! Já estive lá com grupos por 7 vezes, e ainda me surpreende a beleza do lugar e a energia do povo que habita a região.

Nosso grupo era extremamente forte, caminhávamos em um ritmo ótimo todos os dias. São Pedro ajudou no clima, tivemos céu azul em praticamente todos os dias. Só deixou a gente nas nuvens nos dias mais esperados! Parecia brincadeira...

Neste trekking temos 3 dias muitos esperados, pelo visual e pela dificuldade: o dia de subida do Gokyo Ri, um monte de 5.300m logo em frente do vilarejo de Gokyo, e de onde temos um visual incrível do maior glaciar do Nepal e também das montanhas; o dia de subida do Kala Patar a 5.550m, ponto mais alto do nosso trekking, de onde vemos o por do sol nas paredes do Everest, Lhotse, Nupste; a visita ao campo base. Nestes três dias o tempo fechou, tivemos de tudo: neve, vento, frio. Porém, o grupo se manteve com o astral ótimo, e mesmo no meio da nevasca subimos até o topo do Kala Patar, sabendo que não teríamos nenhuma vista; fomos até o fim do Gokyo Ri, num frio danado, na expectativa de uma breve abertura das nuvens, que acabou não acontecendo; e seguimos firmes até o campo base do Everest, para ver de perto as expedições, para que cada um realizasse seu sonho de estar aos pés da maior montanha do planeta.

 
Durbar Square. Foto: Lisete Florenzano Templo de Pashupatinath. Foto: Lisete Florenzano Templo de Pashupatinath. Foto: Lisete Florenzano
Pontes do Khumbu. Foto: Rafael Boldrini Lukla. Foto: Eugênia Del Vigna Começando o trekking. Foto: Leonardo Maciel
 

O que motiva a seguir meu caminho como guia é ver esse esforço de cada pessoa na direção de realizar um sonho, sentir o amadurecimento de cada um e os aprendizados que levam para a vida – são aprendizados profundos, conquistados pela experiência.

Realizar um sonho não é fácil. É preciso um comprometimento consigo mesmo e se abrir ao inesperado, às incertezas. Pois nada garante que vamos conseguir chegar lá! São muitas variáveis: se meu corpo vai se aclimatar ou não, se vou estar bem de saúde, se o clima vai ajudar, se vou ter energia física e mental para realizar a jornada. Se entregar a isso exige muita coragem. Coragem para se preparar fisicamente, emocionalmente, financeiramente para a expedição, sem garantias de sucesso. E, mesmo assim, se entregar a experiência: estar lá já é o suficiente. Me sinto honrada por ter este trabalho, por poder ver estas pessoas nessa entrega tão profunda, por poder mostrar um caminho para esse sonho.

 
Chegando em Khunde. Foto: Leonardo Maciel Hilary Ridge. Foto: Leonardo Maciel Lisete descendo o Kala Pattar. Foto: Leonardo Maciel
Himalayas no Vale do Khumbu. Foto: Lisete Cho La Pass. Foto: Lisete Cho Oyu ao fundo
 

Dessa forma, nosso grupo seguiu com coragem e não se importando com o fato de que as chances de ver o por do sol no Everest eram mínimas. Estava nevando, muito frio, mas nosso objetivo era chegar no Kala Patar. Estávamos bem fisicamente, e assim fomos, passo a passo, respiração a respiração. O corpo sente a falta de oxigênio a 5.550m, mas estávamos bem aclimatados. Lá chegamos, comemoramos e descemos rápido, pois a nevasca estava piorando. O vento aumentando, empurrava a neve por dentro dos óculos e machucava os olhos. Assim foi toda a descida. Chegar no cume é só metade do caminho, muitas pessoas se esquecem dessa parte. Às vezes a descida pode ser dolorosa. E finalmente chegamos no lodge, cansados, com neve por todo lado. As outras pessoas nos olhavam como se fôssemos um bando de malucos, por termos saído naquelas condições. Mas confesso, eu estava feliz por termos vencido mais esse desafio e orgulhosa de nosso grupo!

Se você tem um ideal, um sonho, vá atrás! Se prepare, realize! Tenha coragem para encarar o inesperado, seja ousado! A vida fica muito mais colorida quando nos lançamos para realizar nossos sonhos.

 
Campo Base do Everest. Foto: Eugênia Del Vigna Gokyo Ri. Foto: Aureo Jarzinsky Subindo Gokyo Ri. Foto: Aureo Jarzinsky
Maurício Lino. Imagem do Facebook Lui Ueli Steck
 

Quero deixar aqui uma homenagem a três sonhadores, que tiveram uma passagem curta por este mundo, mas cheias de significado. Um desses sonhadores, Ueli Steck, escalador e montanhista que estava redefinindo os limites da escalada de alta montanha, e que alguns do grupo puderam vê-lo no campo base do Everest alguns dias antes de sua morte na montanha. O outro sonhador, o grande e querido Maurício Lino, que partiu enquanto estávamos no meio do trekking, no dia que subimos o Gokyo Ri. Sua energia infinita, positividade, ousadia para nos apoiar em viagens e programas diferentes, amizade e parceria estão guardadas e serão sempre lembradas. O terceiro sonhador, o grande e querido Lui, parceiro na escalada do Cho Oyu, juntamente com o Agnaldo Gomes. Foram dias duros mas felizes, pois estávamos realizando um sonho. Muitas risadas, piadinhas que só nós brasileiros entendemos, xuxu soup, coragem para encarar nossos limites. Me sinto honrada por ter estado próxima de vocês nesse curto espaço de tempo, pela amizade. E fica mais uma lição: aproveitar o presente, fazendo o nosso melhor.

Grande abraço!
Lisete Florenzano

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