Extremos
 
COLUNISTA LISETE FLORENZANO
 
Reveillon na Serra do Cipó
Texto: Lisete Florenzano
20 dejaneiro de 2015 - 14:45
 
  • Foto: Marina
    Lisete escalando na Serra do Cipó. Foto: Marina
  • Foto: Rodrigo Genja
    Bia." Foto: Rodrigo Genja
  • Foto: Rodrigo Genja
    Bia na Assombrolhos Bicolhos." Foto: Rodrigo Genja
  • Foto: Rodrigo Genja
    Cleverson na Chorrera Musical." Foto: Rodrigo Genja
  • Foto: Rodrigo Genja
    Eu na Dr jack." Foto: Rodrigo Genja
  • Foto: Rodrigo Genja
    Fabi na Dr Jack." Foto: Rodrigo Genja
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    Galera e seus segredos." Foto: Rodrigo Genja
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    Greg na Minha Amada Imortal." Foto: Rodrigo Genja
  • Foto: Rodrigo Genja
    Olivia na Aracnofobia." Foto: Rodrigo Genja
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Lisete escalando na Serra do Cipó Foto: Marina

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Lisete Florenzano

Neste final de ano tive o privilégio de estar numa trip de escalada. Fui para a Serra do Cipó, uma das “mecas” de escalada em rocha do Brasil.

Fui com uma galera de São Carlos, que na verdade só conhecia a Bia, amiga de Botucas e que começou a escalar no ginásio de escalada que tive aqui na terrinha. O resto da galera eu não conhecia, mas eles me aceitaram na barca e foi uma surpresa suuuper boa conhecer cada um. Gratidão galera do São Carlos Pression Team!!!

Saímos de São Carlos em vários carros. O nosso, um Celta, com 4 pessoas mais equipos e mochilas. Sério, achei que só por milagre fosse caber tudo! Mas o Beto foi o agente do milagre e assim, apertadinhos mas com um sorriso no rosto, pegamos estrada.

Chegando no Cipó, tomei um choque! Era uma cidadezinha, com supermercado, lanchonete, e muitas outras “facilities”! Minha primeira e única vez que fui para lá foi em 98, e não tinha absolutamente nada. A gente ficava acampado no sítio da D. Maria e jantava num restaurante super caseiro do filho dela. E era isso...

Comecei então a fazer contas, dos anos que haviam passado e dos acontecimentos. Comecei a escalar em 97, creio que faço parte da segunda ou terceira geração de escaladores em rocha (tirando os pioneiros). Quando comecei, equipos importados já estavam entrando em nosso país, assim não precisei escalar com cadeirinhas feitas de faixa de judô (é sério isso... rs) nem com kichutes (só escalei uma vez... rs). Consegui comprar uma cadeirinha de verdade e uma sapatilha logo no começo da vida escaladora. Diferente da galera da geração anterior a minha, que teve que usar da criatividade para fazer equipos, inclusive aprenderam a costurar em máquinas industriais para fazer mochilas, cadeirinhas, pochetes. Fora os kichutes com as travas da sola lixadas, na falta de sapatilhas apropriadas... Tiveram que aprender meio na raça técnicas de escalada, abertura de vias. Eliseu, Tonto, galera de Curitiba, Rio... acho que todos passaram por isso. Eu tive a sorte de pegar o bonde já encaminhado.

Depois, fiz as contas de quanto tempo eu não fazia uma trip de escalada, e quanto tempo eu não escalava. Nossa... Percebi que desde que fechei a academia de escalada aqui em Botucatu, em 2008, eu não escalo com frequência. Nesses anos trabalhando como engenheira e depois como guia de montanha, ficava mais em trekkings e escalada de montanha, que nada tem a ver com escalada em rocha. Uma vez por ano tirava um mês para escalar rocha, e estive em lugares top 10 como Kalymnos (Grécia), Tailândia, Smith Rock e Red Rocks (USA). Pior, neste último ano eu tinha ido para a rocha umas 8 vezes.

Fomos direto para o G3, setor super tradicional do Cipó. E fiquei MUITO espantada com o que vi... Muita gente escalando, mandando vias super fortes, que antes eram para os “famosos” da escalada da época. MUITAS mulheres mandando vias fortes, duplas femininas... nada de top rope, o negócio era encadenar as vias (fazer a via toda sem cair ou pendurar na corda). Vi o estilo de escalada, principalmente das mulheres... coisa linda de ver, quase flutuando na rocha! Mesmo em vias difíceis, passavam como se nem estivessem fazendo força! Eu só tinha visto isso no exterior, nunca aqui no Brasil. Sétimo grau, que antes era para poucos, não tem mais aquela aura do “quase impossível”. Sexto grau é quase aquecimento... rs. Caracas, realmente eu estava defasada!

Para mim, foi um desafio escalar no Cipó. Não tem nada muito fácil, devido à característica das paredes do local. Tudo levemente negativo, sem muito descanso. No começo me senti um “elefante” na rocha... pesada, desajeitada. Mas devagarinho fui pegando o jeito novamente e consegui umas “cadenas” bacanas, até sexto grau! Uau, que conquista!!!

O grande click, para mim, foi ver a evolução da escalada no Brasil. De alguma maneira, por ser uma dinossaura, me senti parte dessa estória. Não que eu tenha escalado forte a ponto de empurrar o grau da escalada para cima, que tenha sido super ativa do ponto de vista da ética ou coisa assim... Mas o envolvimento que tive, na época em que estava mais ativa nesse meio, com certeza fez essa roda andar para chegar onde está hoje. Como se eu tivesse colocado alguns dos tijolos que fazem parte dessa grande construção... e isso me fez feliz, com aquele quentinho dentro do peito e um sorriso disfarçado no rosto. Cada vez que via um dos companheiros da trip mandando uma via forte, ou aquele projeto, me fazia sorrir por dentro. Era uma sensação de orgulho, como a mãe tem orgulho dos filhos... Eu estava de certa forma orgulhosa dos “filhos” da escalada.

Voltei da trip com aquela pilha de voltar às minhas raízes da escalada. Sou apaixonada por montanhas, neve... Mas neste momento quero voltar a me dedicar à rocha. Abrir mais vias, escalar com frequência, fazer mais trips com essa galera que tem conversas e interesses em comum, essa tribo que enxerga o mundo como algo um pouco mais amplo.

Que 2015 traga boas surpresas, pois planos não faltam!

E para você leitor, faça seus planos. Sonhe! Mas não acredite que não pode viver seus sonhos... faça que esses sonhos se realizem neste novo ano!

Abraços a todos, feliz 2015 para nós!

Agradeço de coração ao São Carlos Pression Team (adoro esse nome... rs), por me acolherem na tribo e por me mostrarem uma nova visão da escalada de hoje! Por todas as risadas, cervejinhas, bons papos e novas amizades! S2 gratidão!