Três brasileiros teimosos querendo chegar no topo da Europa!
da redação, Karina Oliani
23 de agosto de 2011 - 11:21
 
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NO CUME - Finalmente no cume do Monte Elbrus, a mais alta montanha da Europa com 5642m. Da esquerda para direita, Marcelo Rabelo, Rosier Alexandre e Karina Oliani.
 

No final do ano passado recebi um convite para ser a médica de uma expedição comercial que iria escalar o Elbrus, uma excelente oportunidade para fazer o que eu adoro: escalar a maior montanha da Europa e praticar a medicina que me especializei (Medicina de Montanha). Além do mais, a rota Sul do Elbrus (a convencional) é uma escalada razoavelmente fácil e nada técnica, então fechamos o acordo.

Mas devido a conflitos políticos internos que estão acontecendo nessa região da Rússia próximo a fronteira com a Georgia, apenas alguns meses antes da nossa expedição fiquei sabendo que teríamos que subir pela face Norte, uma rota muito mais longa e técnica dessa montanha. O quadro já mudava de figura, eu iria ser a médica de uma expedição de muito mais risco, e eu ainda sequer conhecia pessoalmente o organizador ou os clientes que iriam.
Mas foi aí que pensei: agora é que muito mais provável que eles precisem dos meus serviços médicos e então conciliei minha agenda de gravação do Extremos do Multishow para encarar 2 semanas nas montanhas caucazianas.

Malas prontas: embarquei para o Canadá no meio de julho, gravamos 6 episódios do Extremos que está indo ao ar agora. De lá, embarquei pros EUA para participar do congresso médico da WMS (Wilderness Medical Society) em Snowmass – CO e depois fui colher os resultados de uma das maiores conquistas da minha vida: fui a 1ª médica brasileira a receber o certificado de especialização em Wilderness Medicine (Fellowship) da WMS. Foi uma grande emoção, afinal, foram 3 anos intensos de dedicação e uma vida de aventuras e aí estava a recompensa!
Minha família infelizmente não pôde comparecer à cerimônia, mas fiquei muito feliz que o Marcelo, meu namorado, saiu de São Paulo para me encontrar lá e tirar essa foto enquanto recebia meu diploma.

Enfim dia 5 de agosto partimos pra Moscow onde encontramos todo resto da equipe. A face norte do Elbrus seria a 1ª grande montanha para o Marcelo e quem diria que, só chegaríamos lá, graças a ele...

Depois de terminar de arrumar todos os equipamentos e meu kit médico, dia 8 estávamos todos na montanha. O caminho para chegar lá era extremamente esburacado. Fiquei alerta já que talvez meus serviços médicos tivessem que começar aí. Fomos dentro de um desses furgões cinzas, bem típico de filmes russos, zero de amortecimento ou suspensão, se batendo e caindo do banco por mais de 4h até chegar no acampamento base, a 3200m.

Encontramos o guia e a cozinheira, nos aclimatamos e alguns dias depois subimos para o acampamento avançado (isso só existe na rota Norte) a 3800m. Até então, todos da equipe estavam ótimos de saúde, com oximetria (saturação de oxigênio) dentro do esperado, sem nenhum sintoma, a não ser por um dos integrantes que, pasmem, estava com a pressão arterial de 20 X 12 cmHg!!! Sendo assim, meu papel foi desaconselhá-lo a continuar escalando, passar alguns remédios para normalizar a pressão e após tomar ele aceitou minha “sugestão”.

Fizemos um dia de treino com uso de crampons, piquetas e como fazer um “Self Arrest” no caso de quedas. No outro dia escalamos até 4200m para ajudar na aclimatização. No dia seguinte descansamos para o cume mas infelizmente o tempo fechou de tal maneira que a equipe perdeu todas as esperanças.

Segundo nosso programa inicial, teríamos uma “janela” e a possibilidade de tentar cume até dia 18/8. Subimos e dormimos num helicóptero russo, que havia feito um pouso de emergência a 4800m por causa de uma tempestade no ano passado. Depois fiquei sabendo que nosso guia até conseguiu alguma autorização juntamente ao exército de lá para que isso acontecesse, mas “oficialmente” não poderíamos ter dormido lá! De qualquer maneira o helicóptero estava com as portas abertas e nós não invadimos...

O plano era acordar às 2h e sair às 3h para o cume oeste (considera-se que o Elbrus tem 2 cumes: o Leste com 5622m, e mais distante, o cume oeste com 5642m). Na hora de sairmos para o ataque os ventos estavam fortíssimos (segundo o guia aproximadamente a 100km/h) e a visibilidade realmente nos dizia que nosso único caminho era para baixo! Isso, somado à ENORME má vontade do nosso guia russo, nos afastava ainda mais da chance de antigir nosso objetivo.

A descida foi dura, fria e com pouca visibilidade. Um dos integrantes teve medo e pediu para descer encordado já que estava inseguro: era a 1ª vez que estava usando crampons já em uma parede tão íngreme.

Chegamos no acampamento avançado e nosso líder da expedição, o Carlos comunicou a mim e ao Marcelo que a nossa barraca tinha voado com a tempestade e que teve que fazer o “resgate” e montá-la de novo. (Que cina a minha! Em qual montanha minha barraca vai ficar onde eu a montei?! Hehe)

Mas agora é que eu vou explicar porque anteriormente disse que devemos este cume ao Marcelo. Por volta das 2h da madrugada ele sentiu o nariz muito tampado e não conseguia dormir. Então resolveu sair da barraca e no mesmo segundo entrou de volta e me acordou: “Ká, Ká, olha só o tempo lá fora: a tempestade desapareceu, o céu tá limpo, cheio de estrelas e não tem nem uma brisa!” Respondi pra ele que nossa tentativa de cume já tinha sido feita e que, além de todos estarem cansados e despreparados naquele momento para o cume, nós tínhamos a Van marcada para o dia seguinte e não daria tempo. No meio do meu melhor sono, virei pro lado e tentei dormir de novo.

Mas quem disse que eu conseguia dormir?! Teria sido minha primeira montanha pra onde viajei tantos kms e voltei pra casa sem ter atingido o que me propus! E pra mim, até aceito a derrota, mas teria que vir depois que já tivesse tentado TODAS as possibilidades, já que detesto sentir que estou desistindo!

Enquanto isso, outras equipes saíam para o ataque e alguns minutos depois eu acordei, chamei o Marcelo e fui conversar com o nosso guia já que a nossa última oportunidade estava ali, passando naquele momento bem na nossa frente!

O guia, que já tinha feito cume por inúmeras vezes e desde o início da expedição comentou o quanto estava cansado do seu trabalho não teve uma atitude muito diferente das que estava tendo anteriormente .
Ele disse que era tarde demais para sair e que não tinha como conseguir adiar 1 dia o nosso transporte de regresso. De novo, o NÃO dele só me deu mais força para querer continuar tentando, e como tinham alguns grupos que haviam acabado de deixar o acampamento, fui acordar minha equipe pra ver quem estava afim de se juntar a nós e tentar o cume.

A princípio, a sensação que tive é que eles pensaram: “O que essa médica insistente está nos acordando às 3h da madrugada!?” E após uma breve conversa, um dos integrantes, o Rosier se animou pra ir com a gente. Já que o guia principal não seria o que nos guiaria para o cume, eu, o Marcelo e o Rosier concordamos em dar um $$ extra para um assistente de guia que concordou em nos levar para o cume mas nos deu apenas 30 minutos pra estarmos prontos na base da geleira!

Foi a maior loucura, saímos sem água quente (e a água congelava em questão de minutos), sem organizar a mochila , tendo que arrumar nossas malas que tinham que descer com o restante do grupo e, quando nos demos por si, estávamos apenas os 3 no meio das cravassas, encordados, rumo ao cume com um guia que não falava uma palavra fora do idioma russo!

A subida não foi nada fácil, na noite anterior não tínhamos sequer jantado, não fizemos o repouso necessário pré dia de cume e nem nos preparamos psicologicamente! Mas vou admitir que por dentro estava tomada de felicidade por estar pelo menos tendo minha última tentativa e sabia que compartilhava o mesmo sentimento com o Marcelo e com o Rosier. Até que o Marcelo disse: “Bendita hora que eu fui te acordar e dizer que o tempo estava bom, viu Karina...”. Aí caímos os 3 nas risadas!

Nós praticamente não paramos para comer ou descansar. Nas poucas vezes que ousamos tentar parar para beber água ou comer alguma coisa, nosso guia fazia sinal que tínhamos que seguir. O que nos salvou para enfrentar mais de 1800m de desnível foram os Gels e balas da GU que a minha irmã tinha mandado: fonte de energia rápida e prática, que levávamos no bolso e a excelente qualidade dos equipamentos da The North Face que nos mantiveram aquecidos durante toda escalada. Sem falar que durante a subida eu tomei uns 6 Bullets da TNT que me deu energia para, no mesmo dia, ir do acampamento avançado ao cume (3800m- 5642m) e do cume ao acampamento base (5642m- 3200m) non-stop!!!

Finalmente às 13h do dia 17/08/2011 esses 3 brasileiros teimosos: Rosier Alexandre Saraiva Filho, Marcelo Rabelo e eu conquistamos o cume da Europa e, de lá, levantamos nossa bandeira para representar, com muito orgulho, todos os nossos amigos queridos!



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Karina Oliani já escalou 3 dos 7 Cumes
- Monte Everest - Ásia - 8.850 metros - escalou em 2006
Monte Aconcágua - América do Sul - 6.962 metros - escalou em 2011
- Monte McKinley (Denali) - América do Norte - 6.194 metros
Monte Kilimanjaro (África) - 5.895 metros - escalou em 2010
Monte Elbrus (Europa) - 5.642 metros - escalou em 2011
- Maciço Vinson (Antártica) - 4.897 metros
- Parede Carstensz (Oceania/Papua Guiné) - 4.884 metros