CANOAGEM
João Castro
Por: João Castro  |  3 de maio de 2017 • 06:02

Certo dia ouvi isso de uma pessoa que hoje é um bom amigo: “João, você inspira pessoas e em 2008 quando realizou a travessia de Santos até Paraty, foi ali que eu decidi remar.”




É bom inspirar, gosto quando causo isso, me sinto devolvendo o que recebo diariamente de tantos outros aventureiros, “loucos” ou “lúcidos”.

Existem infinitas maneiras de conhecer o diferente, invadir o terreno do desconhecido, tornar-se parceiro do desconforto e conviver em harmonia com ele. Tudo isso com um só objetivo que é o de conhecer a si. Isso acontece na minha canoa, no meu caiaque, na minha prancha, na água e quanto mais isolado e selvagem melhor.

Foi assim o meu reencontro com as travessias e foi assim que dei início ao projeto N2, realizando a primeira travessia treino programada, a primeira das seis que estão programadas. Não poderia começar diferente. Selva, mata fechada, bichos, mosquitos, botos, paisagem exuberante e chuva torrencial. De maneira bastante resumida eu vou contar como foi.

1º dia: Ilha Comprida / Ilha do Cardoso

O sítio (Cerqueira) que tenho na Ilha Comprida, na “Ponta da Trincheira” denominação para o final da Ilha Comprida na ponta sul, foi escolhido por mim como base e ponto de partida.

Eu partiria as 6 da manhã, mas por sorte decidi dar mais uma olhada na tábua de marés. Percebi que se partisse tão cedo eu enfrentaria uma forte corrente contrária, coisa que lá faz muita diferença, por isso aguardei o melhor horário e por volta das 10h30 e parti.

No barco de apoio, pilotado pelo “local” André, navegador experiente e profundo conhecedor da região, estavam todos da produtora responsável em documentar esta primeira viagem preparatória, material que no fim do projeto, somado aos outros que ainda vamos colher, vai virar um documentário bem bacana.

Logo nas primeiras remadas fui abençoado ou desafiado por uma tempestade com raios, que começou ainda no quilometro 5. Parei e me veio à cabeça ter visto na tv, semanas antes, um caso de raio que caiu em uma praia e atingiu uma turista. Isso me fez titubear. Remei de volta, parei, decidi continuar, parei e decidi voltar, até que finalmente pensei: “já vai ficar com frescura e responsabilidade demais logo na saída? Parece que nessa hora, na baia onde meu pai perdeu a vida, ele que certamente me acompanha todas as vezes, deve ter me dado um tapa no pescoço e dito: “vá em frente!” Foi a melhor decisão, afinal trovoadas são intensas, mas passam rápido.

Nos primeiros quilômetros dos 33 que teria pela frente eu li no GPS a minha média bem acima do que eu esperava fazer e confesso que me surpreendi em mantê-la praticamente o trecho inteiro, merecendo de Katie McPherson o seguinte elogio quando cheguei no vilarejo do Marujá: “Good pace João! ”

Katie estava lá trabalhando com a captação de imagens, mas mesmo sendo em águas tranquilas, ouvir isso de uma das melhores remadoras de corredeiras do mundo, me deu certo orgulho.

Esta travessia é linda! Botos aparecem o tempo todo, pássaros das mais diferentes cores e tamanhos. Uma floresta densa, intensa, silenciosa onde se ouve apenas a sua remada, os pássaros, o estalar de galhos... ...nada mais. Eu amo estar neste tipo de lugar. É uma beleza diferente da que normalmente as pessoas procuram. Lá não é um lugar de águas claras, transparentes tipo Taiti, mas posso afirmar que se trata de água incomparavelmente repleta de vida! É neste tipo de água, em estuários / manguezais, onde grande parte de vida marinha depende pelo menos uma vez para na vida para perpetuar a sua espécie.

Não há dificuldade alguma para fazer esta travessia, ela é muito tranquila, desde que fique atento à tábua de marés e foram poucas horas até chegar ao primeiro destino.

Já na Vila do Maruja (Ilha do Cardoso), nós almoçamos, pegamos dois quartos em uma das pequenas pousadas que são quase uma extensão da casa dos locais e daí por diante foi curtir o lugar. Caminhada de reconhecimento, banho de mar, jantar, cervejinha e cama.

O ponto negativo nesta parada foi a quantidade de lixo na praia voltada para o mar aberto. Lá você sai do canal, caminha pela vila não mais que 200 metros e já está do outro lado de frente para o “mar grosso”. Fiquei de verdade impressionado com a quantidade de lixo, mas embora eu soubesse que ali as correntes trazem o lixo que também os barcos de pesca jogam no mar, era fato que havia bastante lixo gerado por turistas. Mais tarde eu questionaria de maneira diplomática as pessoas na vila. Eles me disseram que constantemente limpam as praias, mas devo ser sincero que eu não consegui acreditar.

Antes de dormir exercitei outra coisa que é muito bacana neste tipo de viagem que foi conversar com os locais, tomando uma cerveja, aprendendo um pouco mais da história do lugar, costumes, ouvindo verdades e mentiras, afinal sem as mentiras a coisa não tem graça nenhuma! (Risos).

A cerveja não parou por aí, pois a galera que me acompanhava “ficou com ciúmes” e terminamos todos sentados no chão, na porta dos quartos, da maneira mais simples e gostosa possível, batendo um bom papo e mandando algumas para dentro.

2º dia: Ilha do Cardoso / Ilha das Peças

Fui alertado na noite anterior, pelo barqueiro André, para que eu partisse no máximo as 6 da manhã, aproveitando assim duas horas de maré contra, mas depois eu pegaria o resto do dia com ela a favor, seria o ideal. Embora esta fosse a melhor escolha para a remada, não era a melhor escolha para as imagens, pois neste horário não teríamos luz. Ryan necessitava de luz para colher imagens do início do segundo dia, eu decidi sair mais tarde.

Eu sabia que eu ia sofrer um pouquinho, afinal sair fora do horário sugerido pelo André, garantiria 100% do dia com maré contra e bem forte! Somado a isso a minha lesão que tenho no ombro, estava lá. A dor estava lá, ainda suave, mas sei que ela avança rapidamente e para remar corrente contra protegendo o ombro, tive que remar com técnica zero. Sem muita explicação e muitos que remam e estão lendo este texto vão entender, os braços sempre estão altos e a remada também ou principalmente é feita com o tronco, com as costas, mas braços erguidos exigem sim bastante dos ombros e daí em diante, a partir do risco, da possibilidade da dor aumentar, passei a remar parecendo o Horário, aquele personagem do Gibi da Mônica, que tem os bracinhos curtos. Teve que ser assim.

Segui com o plano, o horário, a maré contra e o dia não foi nada fácil.

Já no início, nos primeiros quilômetros, passei pela “Vila Fantasma”, local que já chegou a ter muitos moradores, mas hoje está abandonado e na sequência surgiu a cidade do Ariri, onde o canal é mais estreito e consequentemente a corrente fica mais forte. A minha velocidade mesmo escolhendo a margem certa, tentando fugir da força d’agua, não passava dos 5 por hora, bem diferente dos 9 do dia anterior. Eu seguia remando com o pensamento que normalmente uso quando estou no aperto: “vai passar, isso vai acabar”, mas aí eu ouço alguém da equipe, me pedido para que eu fosse para a margem oposta, onde a corrente se aplica com muito mais força. A justificativa era mais uma vez a captação de boas imagens. A equipe queria ter como pano de fundo, a cidade do Ariri.

Quando troquei de margem passei dos 5 Km/h para 3.8 Km/h, mesmo fazendo muita força e aumentando a velocidade em cada ciclo de remada. Na verdade, não há nenhum mérito ou anormalidade nisso, qualquer um com certa técnica, força e vontade venceria a corrente, mas em travessias de longa duração você procura se poupar em tudo, se proteger nos detalhes e este tipo de escolha não é a correta, mas em função “das cenas”, da filmagem, eu concordei. Foram não mais do que 15 minutos nesta situação e já pude passar novamente a escolher o melhor traçado. Cruza para lá, cruza para cá, mas sempre com a corrente contrária.

Neste segundo dia foram aproximadamente 40Km, boa parte com o estado de São Paulo na minha margem direita e Paraná na esquerda. Cabe uma brincadeira em função da necessidade da troca de lado para fugir da corrente. Nunca foi tão rápido trocar de estado e fiz isso mais de uma dezena de vezes. “Estou no Paraná, agora em São Paulo, voltei para o Paraná... Bom, acho que vou para São Paulo novamente”.

Alguns quilômetros à frente entrei definitivamente no estado do Paraná, remando em direção à minha próxima parada, a Ilha das Peças.


Eu já havia definido em qual vila na Ilha das Peças nós pararíamos. Sem muita informação e por pura intuição, eu havia escolhido o vilarejo de Bertioga.

Existem inúmeras comunidades, micro vilas neste trecho final. Igrejinhas, barcos de pesca parados na frente de pequenos casebres, certamente o veículo de locomoção das famílias que vivem lá, assim como as canoas caiçaras que provavelmente são usadas para trechos menores ou simplesmente para pescar.

Mais uma vez nós escolhemos o lugar para passarmos a noite e mais uma vez começaram as distrações. Colocar roupa e objetos para secar após o dia todo sob forte chuva, fomos almoçar e o resto do dia foi observar os Botos na beira do canal, caminhar para conhecer o local, tentativa frustrada de pescar e finalizando com a melhor parte que sempre é o longo bate papo em uma mesa, tomando café, ouvindo a chuva e conhecendo melhor uns aos outros.

Foi neste momento que o Ryan, do jeitão simples, começou a contar um pouco sobre seu trabalho. O papo começou quando eu comentei ter visto vídeos dele no Afeganistão, junto com tropas americanas. Ele contou que estava em um carro caça minas e viu muita coisa que não gostaria. Neste mesmo papo foi que eu firmei com ele o compromisso de ter a minha 1ª experiência em corredeiras e cachoeiras o que já tem data marcada, mas isso é outra história.

Após escurecer de fato, por volta das 21h, todos fomos dormir e ansiosos para o mar aberto, para a Ilha do Mel, para a conclusão da primeira da travessia.

3º dia: Ilha das Peças / Ilha do Mel

Logo cedo a apreensão era a passagem pela barra. Barra é o nome dado para o ponto onde o “Rio” encontra o mar. As constantes e fortes correntes diárias causadas pelas variações de maré, formam diversos bancos de areia neste ponto de encontro, que dependendo da ondulação no mar, se grande ou pequena, pode até inviabilizar a saída de barcos. Não é incomum nas mais diferentes barras espalhadas pelo Brasil, ter uma quantidade enorme de naufrágios e mortes.

Para mim certamente seria fácil vara-la, pois mesmo que eu virasse, poderia desvirar, subir e continuar remando após levar algumas ondas na cabeça, nada que quem já surfou não esteja acostumado, mas o meu pensamento estava no barco de apoio, nas pessoas embarcadas, nos equipamentos e tudo mais.

Pouco antes de chegarmos na barra, mais uma vez veio a solicitação da equipe de produção, para que eu parasse, montasse e desmontasse a minha barraca, simulando um acampamento, pois as imagens colhidas vão sim contar a verdade da travessia, mas servirão também para outras finalidades da produtora. Este foi o acordo.

O lugar era belíssimo, selvagem como toda a travessia. Era mato, água, areia e nada mais, porém surgiu um senhorzinho, pedalando naquela areia fofa, parando a sua bike perto de mim, me desejando um bom dia. Ele entrou em um pequeno braço de rio e saiu em uma canoa deixando a bike ali, na areia, sem ninguém! É claro que começamos a rir, não entendemos muito bem aquilo. Era no mínimo bem diferente do que estávamos tentando transmitir com aquela parada e imagens da montagem e desmontagem de barraca. Um cenário “selvagem” invadido e por aquele “serumaninho” que desmoronou em minutos, todo o contexto daquela parada (rs).

Estava desligado da previsão. Sabia que era boa, havia olhado o mar aberto um dia antes na Vila do Maruja, constatei uma ondulação bem pequena, mas nunca sabemos o que vamos encontrar na barra. O barco de apoio ficou para trás pois ainda tinham que arrumar tudo. Me aproximei da barra e para o meu alívio passei ela com muita tranquilidade, apenas fazendo uma boa leitura das ondas, período entre elas, onde estavam quebrando e onde havia um canal.

O alívio deu espaço para a distração e consequentemente o erro. Passar pelo ponto mais arriscado dentro de um planejamento de travessia, pode colocá-lo em uma zona de conforto e distração que você jamais deve entrar. Passar a barra e avistar a Ilha do Mel, me fez parar de prestar a atenção nos detalhes e aí veio o “sustinho”. Não estava com mapa, não estava com GPS, estava tudo na minha cabeça pois estudei muito as imagens antes de me lançar na travessia.

Ao sair pela barra eu pude ver imediatamente o farol da Ilha do Mel que fica a esquerda, claro que voltada para o mar aberto e decidi usar como referência de aproximação. Esta decisão estava errada. Eu estava me dirigindo para um ponto mais voltado para o mar aberto e isso somado ao momento de maré forte e vazante, me jogou rapidamente para o mar aberto.

Quando me dei conta do erro, virei o barco 180 graus, passei a remar contra a corrente, tentando me aproximar novamente da costa, mas sem sucesso.

Tentei contato com o barco de apoio pelo rádio, não para me tirar dali mas para relatar o que estava rolando e para que ficassem atentos, mas o rádio não funcionou.

Depois de mais de 30 minutos nesta “briga” e vendo que eu estava praticamente parado, tive que pensar em uma solução e é neste momento que o conhecimento vai fazer a diferença.

O mar estava tranquilo, lizo, mas pude avistar um banco de areia onde pequenas ondulações se formavam. Bastava eu remar até lá, aproveitar esta ondulação, surfar algumas, o que certamente me aproximaria da costa e me tiraria do ponto crítico.

Arrumei uma cordinha, fiz um leash improvisado entre o remo e o casco, mas tinha que ficar bem esperto caso virasse pois não tinha outro leash ligando eu ao surfski. Se eu virasse e perdesse a embarcação, certamente a forte corrente me jogaria para fora e o barco iria com as ondas no sentido contrário. Parei, pensei nisso, tentei achar algo que pudesse me amarrar, mas nada encontrei. Naquele momento não havia saída melhor e tive que me arriscar. Finalmente tudo deu muito certo e ficou a lição!

Já próximo de duas ilhotas que ficam praticamente grudadas na Ilha do Mel, fiquei feliz quando avistei o barco de apoio, do lado de dentro, protegido das ondas. Estavam me aguardando naquele ponto. Encostei na praia, deitei na areia, pensei no que havia acontecido, contemplei o céu e agradeci aquele momento. Nós aventureiros fazemos isso!

Ainda deu tempo de dar uma pequena explorada na pequena Ilha, ir até um velho farol, escala-lo para ter uma bela visão do mar e da Ilha do Mel que estava em frente.

Voltei para o meu surfski, retomei a remada e em poucos minutos estava na Ilha do Mel.

A Ilha do Mel

Gostaria de ter ficado na Ilha do Mel alguns dias, mas pouco tempo de permanência foi suficiente para confirmar o que eu ouvi a vida inteira. O lugar é muito bonito, tem boas coisas para fazer, pontos turísticos, passeios, surf e gente simples e legal. Um dia eu voltarei.

A primeira travessia do projeto N2 se foi e ela trouxe a motivação que ainda faltava para de fato treinar o que é preciso, para cumprir a meta principal que é a travessia entre Noronha e Natal. Espero fazer isso no máximo em um ano e meio, mas até lá tem outras travessias preparatórias e igualmente legais.

Mais uma experiência de vida. Mais um micro pedacinho deste planeta que pôde ser conhecido por mim.

Agradecimentos

Meu muito obrigado aos parceiros que viabilizam cada viagem!

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