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125º dia da Expedição Transpatagônia - Rio Gallegos
 
da redação, Texto e fotos: Guilherme Cavallari
2 de fevereiro de 2013 - 20:21
 
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  • Expedição Transpatagônia
    Acampamento na Estancia Sara, na Ruta 3, Terra do Fogo, Argentina Foto: Guilherme Cavallari
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    Renée, cicloturista francês aposentado que passa dois meses por ano pedalando pelo mundo. Dividimos um quarto na Panadería La Unión" Foto: Guilherme Cavallari
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    Mirante para o Lago Fagnano, no lado argentino. Lá no fundo, as montanhas ao norte de Yendegaia… " Foto: Guilherme Cavallari
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    Acampei nesse barraco no Paso San Sebastián, ao lado dos Carabineros de Chile, protegido do vento, mas não de muito pó e mil espirros… " Foto: Guilherme Cavallari
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    O caminho entre Paso San Sebastián e Cullén, na Terra do Fogo chilena. Pampa interminável… " Foto: Guilherme Cavallari
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    Refúgio de trabalho das estancias chilenas da região de Cerro Sombrero. Barracos destrancados e proteção contra o vento na hora do almoço… " Foto: Guilherme Cavallari
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    Balsa no Estreito de Magalhães entre Baía Azul e Punta Delgada. Ventos de 120 km/h impediram o serviço por sete horas. " Foto: Guilherme Cavallari
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    Trabalhadores chilenos da região de Cullén, com quem dividi uma xícara de chá e uma hora de descanso do vento impiedoso… " Foto: Guilherme Cavallari
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    Acampamento não programado na Estancia Sara. Campo salpicado de margaridas e o sol secando o suor. " Foto: Guilherme Cavallari
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    Artur, o mineiro polonês que não falava inglês ou espanhol, mas com que me comuniquei muito bem… " Foto: Guilherme Cavallari
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Acampamento na Estancia Sara, na Ruta 3, Terra do Fogo, Argentina... Foto: Guilherme Cavallari

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Pense a Patagônia como um ponto de exclamação… A Terra do Fogo seria o ponto no pé do sinal… Aliás, um sinal bastante apropriado, porque passar por aqui é sempre uma surpresa, um espanto e às vezes um susto!

Cruzei o Estreito de Magalhães, de Punta Arenas para Porvenir, da Patagônia para a Terra do Fogo, dia 15 de dezembro. Na tarde anterior, fui comer uma torta e tomar um café em uma cafeteria croata muito bem recomendada. O dono da pousada onde eu estava hospedado me disse… “Quando brigo com minha mulher, levo ela nesse café depois, para fazermos as pazes”… Com uma recomendação dessas, o lugar parecia imperdível!

Nessa cafeteria, que eu, aliás, nem gostei tanto assim (não faria as pazes com a Adriana com uma overdose de chantilly), dividi a mesa com uma família chilena – papai, mamãe e filha já adulta. Conversamos sobre a vida e falei da minha profissão e da viagem que estava realizando. Contei que partiria no dia seguinte pela manhã até a Terra do Fogo. A mãe me olhou fundo nos olhos e, sem razão aparente, me disse… “Mucha agua! Mucha agua!”.

Achei o comentário estranho, visto que a previsão do tempo era sol sem chuva por vários dias, mas senti muita força no que ela disse e fiquei sem saber o que responder. Seu comentário não me saiu da cabeça até eu cruzar de volta para a Patagônia, vindo da Terra do Fogo, no último dia de janeiro… Terminou que a velha era vidente, bruxa ou um oráculo.

As águas da Terra do Fogo impediram que eu fizesse a travessia a cavalo de Yendegaia ao Lago Fagnano (matéria do post anterior)… As mesmas águas, na forma de chuva impiedosa, deram uma surra em mim e na Adriana na travessia em trekking até a Baía Windhond (texto do post anterior ao anterior)… Elas me seguraram por quatro horas na Terra do Fogo, tentando impedir minha volta à Patagônia, na forma de mar revolto e ventos de 120 km/h sobre o Estreito de Magalhães…

Da última publicação no blog, escrito em Ushuaia sobre Yendegaia, pedalei exatos 604,57 quilômetros para chegar a Río Gallegos, na costa do Oceano Atlântico. Foram nove dias consecutivos de pedal, quase sempre contra o vento que, no verão, sopra de oeste ou noroeste na Patagônia. Mas não foi qualquer vento! Para chegar à balsa que cruza o Estreito de Magalhães na Primera Angostura (Primeiro Estreitamento), de Baía Azul a Punta Delgada, enfrentei vento regular de 80 km/h com lufadas assassinas de 110 km/h. Eu era obrigado a pular para fora da bike e me apoiar nela para que nenhum de nós dois saísse rolando… E não estou exagerando!

E o pior ainda está por vir! O trecho Río Gallegos a El Chaltén, que vou começar na segunda-feira, promete ser o pior… Serão 458 quilômetros de asfalto na direção noroeste… Ou seja, exatamente contra o vento patagônico em uma de suas piores versões! Quem quiser, pode acender uma vela por mim…

O trajeto que fiz nos últimos dias, descrito no CRONOGRAMA da EXPEDIÇÃO TRANSPATAGÔNIA aqui no blog, foi… Ushuaia, Laguna Escondida, Tolhuin, Río Grande, Estancia Sara, Paso San Sebastián (Chile), Cullén, Punta Delgada, Cerro Castillo e Río Gallegos (Argentina). Os pontos altos do trecho, fora de ordem cronológica ou de importância, foram…

Cullén é uma base da ENAP (Empresa Nacional de Petróleo chilena), uma espécie de distribuidora de óleo com a estrutura de uma pequena cidade. Mas, no meu mapa e nas informações que colhi ao longo do caminho, tratava-se apenas de um posto de gasolina dentro de uma refinaria de petróleo no meio do deserto. Quando cheguei lá já eram 18:30 e eu estava há nove horas em cima da bike. Fazia muito calor, o sol chicoteava, as dezenas de caminhões que dividiam a estrada de terra comigo levantavam nuvens de pó. Eu estava branco de poeira e exausto. Pedi ao encarregado para permitir que eu armasse minha barraca e cozinhasse meu rango protegido do vento, que estava feroz. Ele consultou um chefe, que consultou outro e veio a resposta… Eu não podia acampar nem cozinhar. Seria obrigado a aceitar alojamento em uma cama com lençóis limpos, banho quente, lanche, jantar e café da manhã no refeitório da empresa, tudo grátis, para cumprir com o regulamento da empresa… Não foi nada difícil aceitar as regras da casa! Nenhuma hospedagem é mais acolhedora que aquela inesperada… O mesmo vale para as gentilezas…

No mirante do Paso Garibaldi, entre Ushuaia e Tolhuin, havia um ônibus de turistas estacionando quando cheguei. O dia estava nublado e choviscava. Todos estavam bem encapotados e eu vestia a bermuda que uso sempre para pedalar e estava de camiseta de manga comprida. Enquanto dezenas de máquinas fotográficas registravam a paisagem, eu dei meia volta e me meti, com a bike e o bike trailer, em uma trilha de terra que desce do paso até as margens da Laguna Escondida – a estrada velha – toda erodida, com pedras soltas e um córrego de água de chuva cascateando pelo meio. Enquanto eu descia, controlando a bike para não levar um tombo, ouvia os assobios, gritos e incentivos dos turistas. Definitivamente, ciclistas na Patagônia formam um espetáculo à parte…

De Cullén a Punta Delgada o vento me maltratou como nunca até agora. Para fazer um trecho de apenas 2,8 quilômetros demorei 70 minutos. Eu estava numa área varrida por lufadas de vento que, depois, descobri, chegaram a 110 km/h. As pedrinhas do acostamento levantavam voo na minha frente. A roda da frente da bike era arrancada debaixo de mim. Eu pedalava no plano, no asfalto, na menor marcha da bike, deitado sobre o guidão e usando toda a força que tinha e, quando olhava o ciclocomputador, estava me deslocando a pífios 4 km/h. De repente, vinha uma lufada assassina e eu tinha que pular fora da bike e usá-la como apoio para não sair rolando pela pista. Doido, eu olhava na direção que vinha o vento e gargalhava. Minhas bochechas chacoalhavam contra o vento, como se eu estivesse em queda livre saltando de paraquedas…

Conheci diversos cicloturistas na estrada, dividi o percurso temporariamente com um, o polonês Artur Skrzeczyna (impossível pronunciar o nome do cara!)… 36 anos e mecânico em uma mina de carvão no sul da Polônia desde os 19 anos. Todos os anos ele passa de um a três meses pedalando por algum lugar do mundo. Para poder pedalar por três meses pela Patagônia trabalhou debaixo da terra sem folgas, de domingo a domingo, da 1:30 da madrugada às 9:00 da manhã. Quando viaja de bike, ele pedala. Ele pedala em média 100 km por dia, todos os dias, sem descanso pelo tempo que durar suas férias. Em viagens anteriores cruzou a Mongólia, o deserto da Namíbia, toda a Austrália, a Índia. Não é casado, não tem filhos, não tem namorada, não bebe, não fuma. Minha opinião é que, para Artur, pedalar é um grito de liberdade urrado a plenos pulmões uma vez por ano, depois de uma temporada literalmente “enterrado”…

Conclusões…
Viajar de bicicleta pela Patagônia envolve riscos, esforço, desconforto e muita força de vontade. Nem sempre é o sonho de todo cicloturista, com sol brilhando sobre um campo verde salpicado de margaridas e montanhas decoradas de neve nos cumes. Banho quente, cama limpa, um prato de comida de verdade e boa companhia podem ser luxos além das possibilidades. Confortos são prêmios. Muitas vezes a viagem se resume em completar distâncias longas e cansativas, de paisagem repetitiva e repleta de obstáculos. Mas, quase sempre, o esforço é recompensado e a atitude de aceitação da situação impossível se ser modificada, seja ela qual for, é o caminho de menor sofrimento. Um sorriso diante das adversidades traz mais benefícios que punhos cerrados… Mas, aqui faço parênteses, viajar de bicicleta pela Patagônia não é exatamente igual nossa vida, nossa trajetória pela existência, apenas destilada em sua essência? Não é um excelente laboratório para exercitarmos a sabedoria da calma, não violência, compaixão e alegria?

Se eu fosse filósofo ou poeta, se não sentisse tanta dor na bunda, se não me irritasse tanto com motoristas desrespeitosos, se não gostasse tanto de chocolate e banhos quentes, diria que minha conclusão durante essa viagem é… Nenhuma viagem é mais rica que a viagem interior, a viagem do autoconhecimento.

Mas, quase sempre, estou preocupado demais com o próximo quilômetro, o próximo acampamento, a próxima refeição, a solidão da estrada ou a brevidade da vida… Como é difícil transitar com equilíbrio entre o sutil e o rude.

 




Guilherme Cavallari
www.kalapalo.com.br