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37º dia da Expedição Transpatagônia - Cochrane
 
da redação, Texto e fotos: Guilherme Cavallari
7 de novembro de 2012 - 9:50
 
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  • Expedição Transpatagônia
    Cochrane / Chile Foto: Guilherme Cavallari
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    42km para a fronteira entre Chile e Argentina" Foto: Guilherme Cavallari
  • Expedição Transpatagônia
    A estrada que margeia o Lago General Carrera de Chile Chico à Carretera Austral " Foto: Guilherme Cavallari
  • Expedição Transpatagônia
    Un tipico asado patagonico " Foto: Guilherme Cavallari
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    Um belo visual " Foto: Guilherme Cavallari
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    Alguns dos equipamentos eletrônicos que carrego " Foto: Guilherme Cavallari
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    A Patagônia é linda " Foto: Guilherme Cavallari
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    Nuvens carregadas formam um belo visual no lago " Foto: Guilherme Cavallari
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    A vegetação as margens da estrada " Foto: Guilherme Cavallari
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    No caminho " Foto: Guilherme Cavallari
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    A bike " Foto: Guilherme Cavallari
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    Em Puerto Bertrand nasce o Rio Baker, o mais volumoso do Chile " Foto: Guilherme Cavallari
  • Expedição Transpatagônia
    Ambientalistas e empreiteras estão em guerra constante " Foto: Guilherme Cavallari
  • Expedição Transpatagônia
    Os Patrocinadores da Expedição " Foto: Guilherme Cavallari
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Cochrane / Chile Foto: Guilherme Cavallari

 

Dia de descanso não programado. O corpo, ou a mente, pediu. Escrevo do agradável Café Tamango, em frente à praça central de Cochrane, Chile, ainda na Carretera Austral... Hoje finalmente saiu o sol, momentaneamente, mas logo sumiu atrás de nuvens. O vento diminuiu muito e a temperatura me agrada...

De verdade, não posso reclamar do tempo. A temperatura durante o dia não ultrapassa os 12°C normalmente, de noite despenca para 5°C ou até menos. Nesses 37 dias de viagem só pedalei com chuva dois dias - longos, frios, intermináveis e, por isso, memoráveis. Tem chovido sempre nos meus dias de descanso, por coincidência ou sorte, ou ainda boa energia à minha volta...

Depois de terminado o trekking Jeinemeni-Chacabuco-Tamango, atravessando o futuro Parque Patagonia - que descrevi com fotos aqui no blog no post TREKKING PARQUE PATAGONIA -, voltei de ônibus e carona até Chile Chico, onde deixei minha bicicleta. Descansei, atualizei o blog, fiz backup de todos os arquivos de memória, recarreguei as pilhas e baterias e recomecei a pedalar...

02/11/2012 (sexta-feira)

 

Minha intenção era sair do Chile e entrar na Argentina por Los Antiguos e, desde lá, tomar a Ruta 41 que desce diretamente ao sul, até o Paso Roballos e entrada para o Valle Chacabuco - onde estive no trekking. E assim fiz. Ou quase. Uma vez na Argentina peguei a estrada que queria e sentei a bota. O vento estava nas minhas costas pela primeira vez e quis comemorar, mal podia acreditar. Mas a alegria durou míseros cinco quilômetros...

De repente, uma picape emparelhou comigo e o motorista fez sinais para que eu parasse. Imaginei que algo havia se soltado do meu bike trailer. Desci da bike e fui falar com o argentino, simpático, grisalho, bem barbeado, um pouco acima do peso, pele morena e uma vasta cabeleira de pelos grossos e espetados. Apresentou-se como engenheiro. Quis saber para onde eu seguia. Expliquei. "Estas loco, che? Vos queres morir?" (Você está louco? Tá querendo morrer?). Entramos na picape para escapar do vento, olhar mapas e conversar com mais conforto.

Resumidamente, minha audácia em querer percorrer uma estrada de terra, pouco movimentada, no meio da Patagônia, só porque ela constava no mapa, era típica "burrice de turista desavisado"... A Ruta 41 argentina subia de 250 m a 1.400 m acima do nível do mar e passava aos pés do Monte Roballos, antes de despencar mil metros verticais e dar acesso a o Valle Chacabuco e ao Chile. Meu novo melhor amigo estava em contato via rádio com tratores que simplesmente não conseguiam vencer os mais de dois metros de neve e gelo compactado no ponto mais alto da estrada. Se ele não tivesse interrompido minha escalada, eu teria acampado antes da parte gelada e descoberto minha burrada só no dia seguinte. Ou pior, teria tentado vencer os 12 quilômetros de neve e gelo, gretas e pedras de avalanches de inverno, com temperaturas abaixo de zero e nevascas que ainda caíam quase todos os dias. Ou seja, na melhor hipótese teria perdido dois dias inteiros, na pior, podia ter me enfiado em uma baita roubada...

Pensei alguns minutos o que fazer, seguir pelos pampas argentinos, semiáridos sem fim, ou voltar pelo Chile contornando o Lago General Carrera, como era meu plano inicial. Agradeci imensamente a boa vontade do engenheiro, fiz meia volta (com o vento contra, novamente) e voltei para o Chile. Quando cheguei a Chile Chico de volta, horas depois, havia pedalado 42 quilômetros para nada.

Tomei então a Ruta 265 margeando o Lago General Carrera em direção à Ruta 7 (Carretera Austral). O problema agora era o vento contra...

Jurei para mim mesmo que não faria desse blog um rosário de lamentações ou, pior ainda, um almanaque de vantagens e auto-bajulação. Não quero parecer desbravador, heróico, corajoso ou mais forte que a maioria, sempre enfrentando o pior e o mais difícil... Mas, #&*%@¨!, nunca vi um vento como esse em toda minha vida!!!

Além da subida infindável de dez quilômetros de extensão, saindo de Chile Chico, do peso do meu bike trailer (que é como se eu pedalasse com o freio traseiro meio acionado), o vento funcionava como duas mãos postas no meu peito e impedindo meu deslocamento para frente. Mas isso era apenas o aperitivo, o filhote do monstro que estava adiante...

 

A estrada que margeia o Lago General Carrera de Chile Chico à Carretera Austral, pelo menos até próximo à vila de Mallín Grande, foi literalmente esculpida em rocha. De um lado é parede de pedra, do outro é abismo até o lago. Em determinados pontos sulcos profundos explodidos a dinamite deixam a estrada passar, mas formam túneis por onde o vento encana e ganha ainda mais velocidade. Foi num desses cânions artificias que peguei uma turbina ligada na minha cara e (nunca pensei que isso fosse possível) fui arrancado de cima da bicicleta!

O vento primeiro deslocou a roda da frente para meu lado esquerdo, me desequilibrando, e em seguida bateu no meu peito com os dois pés e as duas mãos, me jogou no chão e virou a bike e o bike trailer como se fosse uma panqueca na frigideira. Tentei me levantar rápido e não consegui, tive que primeiro ficar de quatro no chão e depois me inclinar o máximo que conseguia para pegar a bike, levantá-la, e usá-la como apoio para me suportar em pé. As pedrinhas da estrada levantavam voo e acertavam saraivadas em mim, na bike, em tudo. Eu sentia meus óculos colados no rosto e, mesmo assim, poeira e vento entravam pelas bordas e arrancavam lágrimas dos meus ollhos, que por sua vez iam parar dentro dos meus ouvidos... Tudo o que eu conseguia pensar, puro humor negro, era que devia ter trazido tampões de silicone de natação para essas ocasiões.

A rajada durou talvez dois ou três minutos, se tanto. Foi tudo muito rápido. Não me machuquei e nada se quebrou porque a bike caiu com a ponta do guidão no chão. Não deu tempo nem de sentir medo. Foi até engraçado. Mas, depois disso, eu não conseguia ganhar velocidade nas descidas por medo de outra surra, em velocidade maior.

 

Depois de 20 quilômetros na luta constante contra o vento, a corrente da bike quebrou. Esforço demasiado. Consertei em dez minutos, mas o vento me castigou tanto durante o processo que perdi a paciência e parei na primeira (e única) casa na beira da estrada nesse trecho. Eu estava a poucos quilômetros da Laguna Verde. Encontrei três gauchos sessentões em torno de um cordeiro inteiro, aberto e espetado em ferros diante de uma fogueira protegida pelo vento por meio tambor de metal, tudo dentro de um galpão de três lados de madeira e teto de chapas. Un tipico asado patagonico. Mais de dez cachorros presos a árvores por cordas latiam e se estrangulavam com a minha chegada.

 

Expliquei minha situação e pedi para acampar na propriedade. Terminei convidado para o churrasco com toda a família e armei a barraca no galpão depois de terminado o banquete, aproveitando ainda um pouco do calor da fogueira. Foram 62 quilômetros no dia, que valeram por 124 ou mais...

03/11/2012 (sábado)

 

Enquanto vocês descansavam no fim de semana brasileiro, eu ralava na Patagônia... Mais um dia, praticamente inteiro, de fortíssimo vento contra todo o tempo. Nessas horas meu passatempo é brincar com números... Meu ciclocomputador marca, por exemplo, 19.78 km e eu tento lembrar do que fiz, onde estava, quem eu era no ano 1978... Tento adivinhar com exatidão o número que vai aparecer no computador quando eu chegar em frente a uma árvore... E assim por diante. Por sorte não falta aparelho eletrônico no meu guidão para me distrair nessas horas...

 

A paisagem tentava passar despercebida, mas era impossível. Nuvens apressadas de todas as tonalidades de cinza tingiam a superfície do lago em múltiplos tons de azul. O vento fazia saltar carneirinhos de espuma branca da água. A vegetação, ressequida e cercada de rochas, variava de tons pastéis de marrom, verde, vermelho e eventualmente floradas amarelas como sustos ou surpresas. Praticamente não vi carros passando em nenhuma direção e só depois descobri porque...

 

Cheguei à minúscula vila de Mallín Grande - que tem um ginásio de esportes metálico desproporcionalmente grande como cartão de visitas - aliviado por ter saído da costa do Lago General Carrera e fora do açoite implacável do vento. Tudo o que eu queria era uma banho quente, uma cama quente, qualquer coisa que trouxesse o calor de volta à alma. Juro que, em determinado momento, tive a nítida impressão que minha sombra se esticou com uma rajada mais forte de vento... Mas pode ter sido alucinação também.

Em Mallín Grande terminei por me hospedar na casa do paramédico e dono da mercearia local, Victor Oyarzo Paredes, também de 49 anos como eu, trabalhador, empreendedor, bem-humorado e gentil. Fiquei com a impressão que poderíamos ser grandes amigos se tivéssemos a oportunidade. A família – mulher e casal de filhos – não se importou com minha presença e agiu com naturalidade e espontaneidade. Foi um privilégio conviver com eles por um fim de dia e, se não estivesse tão cansado (fui ao banheiro e tomei um susto com o velho de cabelos grisalhos desgrenhados, barba do mês passado, olhos vermelhos, pele ressequida e queimada do vento que vi no espelho), teria passado mais horas na companhia deles.

Foi um dia de 61 km bem sofridos.

04/11/2012 (domingo)

 

Sem vento, tudo mudou. Esse foi o dia de despedida do Lago General Carrero, que venho acompanhando desde 20 de outubro, quando cheguei a Puerto Ingeniero Ibañez. Em Puerto Guadal fiz uma parada longa para o almoço, em uma lanchonete, algo que nunca faço porque tenho medo de esfriar muito o corpo. Foi interessante, mas difícil retomar o pedal com chuvisco depois de uma hora em uma sala com fogão a lenha à toda do meu lado.

 

A Ruta 265 se junta à Ruta 7 (Carretera Austral) nove quilômetros depois de Puerto Guadal e, uma vez na Carretera comecei a perceber rastros de bicicletas. Quilômetros adiante alcanço dois jovens suíço-franceses em bicicletas com trailers, como eu. Fizemos um comboio interessante até Puerto Bertrand, onde fiquei hospedado em um hostel bem simples, como único hóspede da simpática Doña Maria Ester, enquanto os suíços seguiam viagem na chuva forte até Cochrane, noite a dentro.

56,26 km tranquilos, sem grandes emoções.

05/11/2012 (segunda-feira)

Choveu forte, sem parar, a noite toda. Acordei com chuva e com medo do que teria de enfrentar se o tempo não melhorasse. Mas o tempo melhorou e peguei chuva fraca só nos últimos cinco quilômetros para chegar a Cochrane.

 

Perto de Puerto Bertrand nasce o Rio Baker, o mais volumoso do Chile. Sua águas de cor esmeralda atraem turistas de todo o mundo, muitos pescadores de fly fishing, e diversos lodges de luxo se instalaram às suas margens no trecho próximo à vila. Esse rio é palco do grande debate que há anos mexe com os ânimos locais – a construção de uma barragem e usina hidroelétrica.

 

Ambientalistas e empreiteras estão em guerra constante. A população se encontra dividida, confusa. Por um lado a oferta de energia mais barata seduz qualquer um, por outro lado a idéia de ver esse patrimônio natural retalhado e mutilado faz doer qualquer coração verdadeiramente patagônico. Não ouso dizer que tenho resposta para o dilema, embora prefira ver passarinho fora de gaiola e rios livres de barragens. Ao longo do trajeto vi diversas pichações e outdoors de um lado da disputa e de outro, alguns agressivos, outros cômicos. Pedalei boa parte do dia acompanhando o leito sulcado em cânions ou espraiado e rochoso do Baker, vi sua confluência com o Rio Neff, que traz sedimentos do Campo de Gelo Norte e faz o Baker mudar de cor para um verde leitoso, subi uma pequena serra e deixei o grande Baker para trás, para ir desaguar no Oceano Pacífico ao lado da famosa e pitoresca Caleta Tortel.

 

A Patagônia é bela e dura. Assim como suas árvores, deformadas pelo vento, que conseguem crescer em solo pedregoso e pobre, seus habitantes são calejados, retraídos, simples e capazes de florescer nas condições mais adversas. Pedir carona é fácil, ganhar hospedagem também. Gente que cresceu isolada e carente conhece bem a importância da solidariedade. Desfrutar das belezas naturais da região do jeito que me propus a fazer – sozinho, em bicicleta ou a pé, acampando quando preciso, de forma simples e econômica – me aproxima da realidade local. Não faz muito tempo, crianças eram enviadas a grandes centros urbanos para estudar em colégios internos, começando a viagem da estancia onde viviam em carroças puxadas por bois, entalados entre fardos de lã de ovelhas recém-tosquiadas. Segurança e conforto ainda são promessas por aqui, quase sonhos. Meu maior obstáculo até o momento nessa viagem não foi vento, frio, chuva, neve, gelo, montanhas ou rios caudalosos, mas o excesso de conforto e a ilusão da segurança que recebi no berço. A Patagônia deixa claro que sou cria de uma sociedade preguiçosa, comodista, imediatista, sedentária e sedenta por consumo. Luto todos os dias muito mais contra meu cansaço mental do que contra meu cansaço físico. Minha mente quer descanso, banho quente e lençóis limpos muito antes das minhas pernas entrarem em colapso muscular. A prova disso é que, mesmo me achando exausto, quando faltam menos de dez quilômetros para chegar à localidade onde vou dormir, ganho força de cavalo pangaré quando galopa de volta ao estábulo. Disparo como um projétil. Minha esperança é que essa viagem tenha um efeito transformador de DNA, que injete a força e a resistência da Patagônia nos meus indolentes cromossomos tropicais.

 

 



Guilherme Cavallari
clubedaaventurakalapalo.blogspot.com.br