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31º dia da Expedição Transpatagônia - Trekking no Parque Patagônia
 
da redação, Texto e fotos: Guilherme Cavallari
5 de novembro de 2012 - 18:35
 
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  • Expedição Transpatagônia
    Trekking no Parque Patagônia Foto: Guilherme Cavallari
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    A entrada da Reserva Nacional Lago Jeinemeni" Foto: Guilherme Cavallari
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    O guarda-parque me ajudando comm alguns mapas. " Foto: Guilherme Cavallari
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    A pegada de Puma na trilha " Foto: Guilherme Cavallari
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    O Lago Jeinimeni " Foto: Guilherme Cavallari
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    O leito pedregoso do Estero da Gloria " Foto: Guilherme Cavallari
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    A vista espetacular da Laguna Verde " Foto: Guilherme Cavallari
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    O acampamento com uma cabana de madeira sem teto " Foto: Guilherme Cavallari
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    Procurando a trilha " Foto: Guilherme Cavallari
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    Avistando Portuzuelo " Foto: Guilherme Cavallari
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    Carona com o pessoal de uma ONG " Foto: Guilherme Cavallari
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    Reserva Nacional Tamango " Foto: Guilherme Cavallari
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Trekking no Parque Patagônia Foto: Guilherme Cavallari

 

A Conservación Patagónica é uma ONG especializada em criação de parques naturais. Sua única fonte de recursos financeiros vem da filantropia. Doadores do mundo todo injetam recursos na entidade que, por sua vez, compra enormes parcelas de terra de interesse público e natural, com potencial de turismo aventura, monta toda a estrutura de operação turística e, numa última etapa, doa tudo ao estado, ao país, onde essas terras se localizam. Ou seja, trata-se de uma máquina de transformar terras privadas em terras públicas sob as leis vigentes de proteção ambiental do país em questão.

Soa um pouco com um "conto de fadas" para nós sul-americanos, eternamente explorados e carentes, habituados a enxergar terra como sinônimo de riqueza e poder, soberania e influência. Ficamos estacionados no século XVI. Para nós, doar terra soa mais como a porta de entrada para algum truque muito bem bolado... Pelo menos assim pensa a maior parte da população chilena.

Na prática, a Conservación Patagónica comprou terras e doou o Parque Nacional Corcovado ao governo chileno, num total de 2.940 km² de área territorial... Comprou terras, montou toda a estrutura de receptivo turístico e trilhas e doou o Parque Pumalín, de 2.833 km² de área... Já comprou as terras e está montando uma mega-estrutura de receptivo turístico com uma incrível rede de trilhas na área da histórica Estancia Chacabuco, no Vale Chacabuco, entre a Reserva Nacional Lago Jeinemeni ao norte e a Reserva Nacional Tamango ao sul. A proposta é integrar as três áreas de conservação ambiental e criar o Parque Patagonia, com área total de cerca de 1.040 km² e potencial de competir em qualidade de trilhas e beleza cênica com o Parque Nacional Torres del Paine, também no Chile.

Minha intenção era percorrer, em trekking, uma das futuras rotas do Parque Patagonia, entrar pela Reserva Jeinimeni, percorrer suas principais trilhas, atravessar o Vale Chacabuco, conhecer as atuais estruturas, os profissionais responsáveis e sair pela Reserva Tamango (mapeado no meu livro Guia de Trilhas Carretera Austral). Tudo sozinho, em estilo trekking ultraleve, fora de temporada, fotografando e fllmando tudo. Queria conhecer o roteiro, ou melhor, um dos roteiros, que futuramente estará entre os mais conhecidos e cobiçados no universo outdoor, competindo com Torres del Paine na região.

Eu queria percorrer uma trilha que será, em breve, clássica e visitada por gente do mundo inteiro, antes de tudo acontecer... Missão cumprida!

 

DIA 1 - RESERVA NACIONAL LAGO JEINEMENI (14,10 KM)

O dia anterior foi de chuva na ensolarada Chile Chico, o que significou uma montanha de neve na Reserva Nacional Lago Jeinemeni. O caminho da cidade até a entrada da reserva estava espetacular, cinematográfico, mas deixava um aviso claro... O começo do trekking seria frio, escorregadio, difícil e técnico.

Tudo começou mal. Bem mal...

Consegui um aventureiro local, Ferdinando Giorgia, proprietário da agência de turismo aventura Expeditions Patagonia, para me levar de carro os 65 quilômetros de estrada de terra até a entrada da reserva. Ele também me emprestou um telefone satelital Iridium, para que eu não ficasse tão isolado e tivesse como pedir ajuda se precisasse... E eu precisaria. Fomos conversando animados sobre política, ambientalismo, expedições realizadas, planos futuros, nossas esposas, enfim, a vida dentro e fora da trilha. Paramos para fazer dúzias de fotos e abrir diversas porteiras. Toda poça de lama estava coberta com uma camada grossa de gelo. Os pássaros estavam estufados, tentando se aquecer. O céu azul dava a falsa impressão de calor.

Quando desembarquei do carro e me despedi de Ferdiando verifiquei todo meu equipamento para ter certeza que não havia esquecido nada no veículo. O carro foi embora e decidi gravar um depoimento em vídeo... Comecei dizendo que estava preparado, que tinha comigo roupa e calçado técnico adequado, comida para mais de uma semana, fogareiro com combustível, meu GPS com... Cadê meu GPS? Abro a mochila... Nada. Verifico os bolsos da jaqueta... Nada. Putaquepariu! O GPS ficou no console do carro, onde eu o coloquei para mapear o trajeto da cidade até o parque!

Pego o telefone satelital e ligo para o celular do Ferdinando... Fora de área. Ele só teria acesso a sinal dentro de Chile Chico. Saco! Tenho que sentar e esperar, aproveito para atualizar meu diário de viagem sentado no chão com as costas para a placa de entrada da reserva, numa réstia de sol. Resultado final, ao invés de começar a caminhar às 10:00 comecei a pedalar às 13:30, puto da vida mas ao mesmo tempo rindo de mim mesmo, afinal eu já fui pedalar com amigos em São Paulo e ao chegar na trilha percebi que havia esquecido a bicicleta em casa (ler crônica a respeito: (des)atenção plena). E o pobre Ferdinando teve que voltar de Chile Chico os 65 km para me entregar o aparelho... Fazendo a piadinha clássica "não esquece o canivete suíço autêntico", referência ao filme 127 Horas.

Quando recupero o GPS, começo a caminhar, para parar três quilômetros adiante na casa dos guarda-parque, onde pago a taxa de ingresso na reserva e peço mais informações sobre o trajeto margeando o Lago Jeinimeni, o Valle la Gloria, o Portezuelo la Gloria, margeando parte do Lago Verde, o Valle Hermoso, o Portezuelo Avilés, o Valle do Rio Pedregoso ou Avilés até o Valle Chacabuco. As informações que eu tinha eram bastante vagas e eu não me sentia nada seguro.

 

O guarda-parque que me recebeu, Cesar, muito simpático e solícito, fez um chocolate quente para mim e procurou mapas para me ajudar, mas ele era novo na profissão e não conhecia as trilhas. Seu chefe, Benjamin, estava almoçando e voltaria às 15:30. Até Benjamin voltar e me informar de forma completa e satisfatória, já eram 17:00 quando comecei realmente a caminhar. Mudei de planos e decidi chegar até o Estero la Gloria e deixar o Portezuelo (passagem alta de montanha, portal) para o dia seguinte... Sábia decisão.

 

No caminho fotografei duas pegadas de puma no barro novo. Uma bem grande, provavelmente de um macho adulto e forte. Bateu medo. Parece que, de repente me dei conta que estava completamente sozinho no mato, fora de temporada, sem nenhum outro turista (maluco) por perto, por trilhas cobertas por um palmo de neve e rodeado de natureza... Inclusive pumas.

 

O caminho em torno do Lago Jeinimeni é feito em veículo 4x4 e bem marcado, mas chegando ao final do lago o mato repleto de espinhos, típico de algumas regiões da Patagônia, e charcos sem fim tomaram conta do terreno. Decidi desistir de encontrar a trilha e cortar o mato em diagonal e me dirigir diretamente para a margem pedregosa do Estero la Gloria, uma rio de degelo em um vale desproporcionalmente largo. Juro que tentei não molhar as botas e os pés, mas logo percebi a inutilidade do intento. Eram tantos riachos, córregos, lamaçais e charcos para cruzar que eu caminharia mais tempo com as botas nas mãos do que nos pés - nada muito aconselhável quando a temperatura está em torno de 5° C e o vento assobia nos ouvidos.

O progresso rasgando o mato no peito foi muito mais lento e árduo do que eu havia imaginado. Quando finalmente cheguei à margem do Estero la Gloria o dia estava terminando, já eram 21:00. Consegui montar o saco de bivaque com os últimos raios de sol. O vento encanava no vale e ganhava ainda mais força, fazia pedras menores próximas de mim alçarem vôo. Insano! Eu precisava trabalhar sem luvas para ligar o fogareiro e preparar o jantar - Miojo com sopa instantânea - mas meus dedos ficavam duros em poucos segundos. Com esforço e a rapidez que consegui produzir, esquentei a comida, que me deu conforto físico e psicológico, fui dormir sem escovar os dentes.

DIA 2 - RESERVA NACIONAL LAGO JEINEMENI (8,12 KM)

Acordei com muito gelo sobre meu saco de dormir. Minhas botas, que estavam bem molhadas, amanheceram dois blocos rijos de gelo. Não foi fácil calçá-las com os pés quentinhos do saco de dormir de pluma de ganso, improvisei um par de meias de sacos de plástico. Fervi água para o café da manhã - granola com leite em pó, café com leite e bolachas salgadas.

 

Segui o leito pedregoso do Estero da Gloria até um determinado ponto, onde me pareceu possível enxergar o Portezuelo la Gloria, uma sela entre dois picos altos, um bem nevado, que me levaria de um vale para outro. Decidi cortar a montanha diagonalmente até a passagem. Errei feio! Se eu tivesse ficado no leito do rio até ficar em frente do portezuelo teria economizado muito tempo e muito mais energia... Caminhei horas por ribanceiras de inclinação superior a 60° me segurando a galhos, arbustos, pedras, raízes e até grama seca para não despencar montanha abaixo. Passei mais tempo me arrastando de bunda do que em pé... Mas quando finalmente cheguei no portezuelo as coisas pioram ainda mais!

 

No ponto mais alto da passagem havia um metro de neve! Em determinado momento eu afundei até a cintura e tive que "nadar" para sair do buraco. Bateu um pouco de pânico. Eu não tinha idéia do que havia debaixo dos meus pés... Já era 13:00 e eu não havia parado um minuto desde às 9:15, quando comecei a caminhar. Encontrei uma gruta com estalactites de gelo e comi um sanduíche de pão integral, queijo e patê de presunto, bolachas salgadas, amendoim, amêndoas e damascos secos.

 

O outro lado da montanha era tão íngreme quanto o lado de onde eu vinha, só que com meio metro de neve por toda sua extensão. A vantagem era a vista espetacular da Laguna Verde, cor de esmeralda misto com turmalina. Eu enxergava nitidamente a praia onde devia chegar, a três ou quatro quilômetros de distância no máximo, com os dois rios que deveria atravessar, mas isso era de pouco consolo... Cada passo era puro sacrifício. Eu estudava minha rota de árvore em árvore, de pedra em pedra, sempre colocando um objeto grande abaixo de mim que pudesse aparar uma possível queda. Muito tenso. Meu objetivo não era a praia distante, mas simplesmente a próxima árvore, a próxima pedra.

Foram mais de seis horas para subir e descer a montanha que, se eu fizesse por trilhas, demoraria bem menos que a metade do tempo caminhando tranquilamente.

 

Depois da praia, depois de atravessar os dois rios, depois de uma curva que me levou ao Valle Hermoso, encontrei a área de acampamento com uma cabana de madeira sem teto. Um lodge seis estrelas para mim! Fiz uma bela fogueira de troncos molhados que defumaram todo meu vestuário, mas alegraram meu espírito com luz e calor. Comi e dormi como um príncipe - o meso cardápio e a mesma cama da noite anterior. Decididamente, o que traz felicidade é o estado da mente, não do corpo.

DIA 3 - PORTEZUELO AVILÉS (39,00 KM)

Eu achava que o pior já tinha passado, que dali em diante só caminharia assobiando canções e identificando plantas no mato. Não foi bem assim... Quatro quilômetros depois eu deveria entrar no Valle Rio Pedregoso, para chegar ao Portezuelo Avilés e sair da Reserva Nacional Rio Jeinimeni e entrar na área da antiga Estancia Chacabuco. Acontece que a boca de entrada do vale tem mais de um quilômetro de largura e a trilha menos de quarenta centímetros. Mais ou menos como achar a tal agulha no palheiro...

Eu via que o fundo do vale era composto de lengas - árvores altas e esbeltas que formam um bosque espaçoso e arejado - mas a entrada era o temível matorral com charco. Espinhos e água. Tentei três entradas diferentes e me vi emaranhado em arbustos espinhudos até as orelhas. Retrocedia e pesquisava outra entrada. Passei quase uma hora e meia assim, até que vi meia pegada de uma bota de trekking, diferente da minha, na entrada do meio. Bingo! A dica que eu precisava...

Lutei contra o matorral, caí de cara num arbusto (sem espinhos, por sorte) depois de afundar a perna até o meio da coxa em um buraco de água escondido por vegetação, e consegui entrar no bosque e lengas... Que paz, que silêncio, nada se movia, dava vontade de também ficar imóvel e até parar de respirar! Havia neve no fundo do bosque e uma possível trilha no chão estaria encoberta. Mas, não demorou muito e encontrei uma fita cor de abóbora amarrada a um galho de lenga... Marcação de trilha. Segui uma, duas, três, meia dúzia de fitas e as marcações desapareceram. Apareceram pegadas de puma novamente. Ao invés de assobiar canções, comecei a gritar "oi", "oba", "olá" para espantar os possíveis pumas. Uma técnica recomendada por especialistas. Eu batia também meus bastões de caminhada um contra o outro.

Errei bastante o caminho porque me vi algumas vezes diante de obstáculos difíceis demais para uma trilha de trekking. Subi uma encosta bem íngreme com neve na canela, subi muito, apenas para descobrir que havia uma parede de granito na minha frente, que tive de contornar me agarrando novamente a galhos, arbustos, pedras e grama seca... Mas, quando me dei conta, estava no portuzuelo, acima das duas vertentes do vale. Comemorei com uma pausa para o almoço. Fazia mais de quatro horas que estava em movimento constante.

 

Decidi não acampar ali, conforme minha programação original. Eram 14:30 e eu estava eufórico demais com o sucesso do segundo passo de montanha e o fim da etapa da Reserva Nacional Lago Jeinimeni. Comecei a descer o leito pedregoso do Rio Avilés. Encontrei um trilha nova de 4,5 km e extensão do futuro Parque Patagonia, conheci dois gauchos senderistas em cavalos (construtores de trilhas), encontrei trilhas antigas dos tempos da Estancia Chacabuco, vi o Rio Avilés sumir e um cânion profundo de pedras, avistei o gigantesco Valle Chacabuco que um dia foi repleto de ovelhas, gado e cavalos... Na animação caminhei 12 horas com duas paradas de 15 minutos e percorri 40 quilômetros. Cheguei no fundo do Valle Chacabuco com os últimos raios de sol, comi dois sanduíches e um pedaço de chocolate e fui dormir sem escovar os dentes (minha dentista vai adorar essa viagem)...

DIA 4 - VALLE CHACABUCO (27,00 KM)

Existe uma estrada de terra que corta toda a extensão o Valle Chacabuco e minha intensão era busca uma alternativa mais rústica de deslocamento. Não encontrei, a não ser se quisesse caminhar por charcos e pelo leito do rio. Vi manadas de guanacos espalhando água enquanto fugiam da minha aproximação. Cruzei o vale também espalhando água, mas com bem menos elegância que os guanacos, e cheguei à estrada de terra. A perspectiva de caminhar mais de 30 quilômetros por ela não era animadora. Se eu gostasse de andar por estradas faria Santiago de Compostela e não trekking na Patagônia. Passou um carro cheio de norte-americanos de uma ONG e me deu carona - na caçamba da caminhonete, deitado sobre pilhas de mochilas. Às 12:30 eu estava a administração da Conservación Patagónica conversando com Dagoberto Guzman, administrador do Parque Patagonia.

Dormi na área de camping West Winds com direito a banho quente (um luxo totalmente inesperado) e um quiosque coberto só para mim. O Miojo com sopa instantânea ficou até mais saboroso.

DIA 5 - RESERVA NACIONAL TAMANGO (27,70 KM)

Dagoberto me explicou o caminho até a Reserva Nacional Tamango... Vê aquela trilha que sobe a montanha atrás da área de acampamento? Suba até a linha de neve da montanha ao lado, pegue uma bifurcação e passe para o lado de lá da cadeia de montanhas pelo fundo da passagem, da sela entre os cumes. De lá você verá a Laguna Elefanta, a Laguna Elefantina e, depois de descer um tanto, a cidade de Cochrane.

Parecia fácil... Mas como estamos em outubro e a temporada de trekking ainda não começou, ele se esqueceu de dizer o que eu já devia ter adivinhado... A neve terá mais de um metro de altura na passagem, você terá que subir muito mais e passar para o lado de lá da cadeia de montanhas atravessando charcos e campos de altitude açoitados por ventos gelados, depois despencar bosques cobertos de gelo, em seguida afundar até as coxas em gelo pastoso com riachos enterrados em neve velha, tudo para chegar aos bosques de Tamango enxarcados de água de degelo... Bom, pelo menos não enfrentei as nuvens de pernilongos que encontrei nesses bosques no verão de 2009/2010, quando estava mapeando o Guia de Trilhas Carretera Austral...

 

No final, fiz todo esse último dia de trekking traçando um azimute em direção à Laguna Elefantita e depois até Cochrane e seguindo adiante, como aliás fiz praticamente toda a travessia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Trekking solo é solitário. Fotografei e filmei bastante, gravei vários depoimentos em vídeo conversando com um companheiro imaginário, mas nada substitui um companheiro de verdade, alguém que viu o que eu vi, sentiu o que eu senti, compartilhou a experiência comigo. Que saudades da minha mulher e companheira de trekking, Adriana!... Caminhar sozinho por regiões tão selvagens também aguça e afia nossos medos. Numa das noites eu acordei quase gritando porque sonhei que uma pantera negra vinha direto na minha direção... Corremos riscos o tempo todo, em todos os lugares e momentos de nossas vidas, nosso maior medo é a morte e nos aproximamos dela a cada dia que passa, mas estamos sempre muito ocupados tentando esquecer isso. Ficar sozinho no meio do mato em condições adversas não me permitiu esquecer um segundo minha fragilidade, minha mortalidade, minha condição humana. Mas isso não me deprimiu, ao contrário, tingiu de cores vivas cada momento... Nossos medos são frutos da nossa mente, que é inconstante. O puma que eu temia não assusta as árvores e pedras, não é uma ameaça por definição. O puma que eu temi nessa primeira travessia solo que fiz, não vai me assustar tanto na segunda ou terceira travessias que fizer. O novo é assustador até virar familiar. Então o medo é circunstancial e, portanto, relativo... Cheguei na administração da Conservación Patagónica procurando Pablo Carrasco, administrador que conheci em 2009 e passei uma tarde toda tomando chá e conversando. Nos demos muito bem e foi ele quem me inspirou a fazer essa travessia. Assim que entrei no escritório fui informado que Pablo havia morrido há um ano, de câncer, que suas cinzas foram espalhadas no Rio Baker. Pablo foi um bom homem, me disse Dagoberto, "y estamos todos aquí de paso" (estamos todos aqui de passagem).

Dedico esse texto a Pablo Carrasco, que pouco conheci mas que me inspirou por três anos. Eu fiz essa pequena travessia e você terminou a sua. Estamos todos na mesma trilha.

 



Guilherme Cavallari
clubedaaventurakalapalo.blogspot.com.br