Extremos
 
18º dia da Expedição Transpatagônia - Coyhaique / Chile
 
da redação, Texto e fotos: Guilherme Cavallari
18 de outubro de 2012 - 15:40
 
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  • Expedição Transpatagônia
    O eixo traseiro da bike quebrou Foto: Guilherme Cavallari
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    Carretera Austral" Foto: Guilherme Cavallari
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    A difícil estrada de rípio, muito comum na Patagônia " Foto: Guilherme Cavallari
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    A serra de Queulat " Foto: Guilherme Cavallari
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    Coyhaique, capital da Patagônia chilena " Foto: Guilherme Cavallari
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O eixo traseiro da bike quebrou Foto: Guilherme Cavallari

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Coyhaique, capital da Patagônia chilena, se assim se pode dizer... Cerca de 60.000 habitantes num aglomerado razoavelmente organizado, limpo e até simpático, bem no meio da Carretera Austral, entre enormes paredes de granito que convidam à escalada em rocha e picos não muito altos mas ainda nevados em outubro. Em oito anos de visitas regulares, nunca vi calor igual na Patagônia como dessa semana. Cheguei aqui depois do pior trecho de terra da viagem até agora... O atalho de Villa Mañihuales a Coyhaique pela Villa Ortega. Explico...

A Ruta 7 (Carretera Austral) encontra com a Ruta 240, que conecta Puerto Chacabuco e Puerto Aysén a Coyhaique seguindo o vale do Rio Simpson. Dizem que aqui é o melhor lugar do Chile, e talvez do mundo, para pesca com mosca (fly fishing), mas eu já ouvi isso em mais meia dúzia de lugares na Patagônia... Esse encontro de estradas desviou o trecho asfaltado da Carretera Austral, que começa na bifurcação para Puerto Cisnes, para Puerto Aysén, então a verdadeira Ruta 7 se manteve em terra e cascalho (o temido rípio) por quase 60 quilômetros até quase chegar a Coyhaique. Imperdível!

A paisagem é tão linda e impactante, de montanhas de paredes quase verticais que fazem as árvores parecerem escaladores presos a rochas, pontuada de fazendas isoladas, que é difícil pedalar um quilômetro sem tirar uma foto.

Mas, sempre tem um "mas" na Patagônia, imediatamente depois da diminuta e muda Villa Ortega, para quem viaja de norte a sul, o rípio fica horrípio... O cascalho fica do tamanho de laranjas e maçãs grandes, envoltos em um palmo de areia fina e solta. Difícil até para empurrar a bike! Meu bike trailer de 30 quilos virou um arado sulcando o solo e parecia pesar 300 quilos. Eu bufei, suei, grunhi, praguejei e tive fantasias assassinas contra todos os motoristas de picape e caminhão que zuniam por mim atirando pedras com seus pneus e levantando uma onda de poeira sufocante... Mas, de novo um "mas", no fundo eu ria sozinho. Confesso que tenho uma lado masoquista, porque meu mantra era "manda mais, quanto pior, melhor!"... Chegar em Coyhaique e tomar o primeiro café expresso desde Bariloche foi um merecido e celebrado prêmio.

Desde minha última publicação no blog, em Puerto Puyuhuapi também no Chile, muita coisa aconteceu...

Um dia inteiro de muita chuva e frio, impossibilitaram fazer o percurso de quase 90 quilômetros até Villa Amengual numa tacada só. Na verdade nem era essa minha intenção. Depois de 40 quilômetros de Puyuhuapi começa uma serra íngreme de 500 metros de desnível vertical, em dez quilômetros de extensão, que leva ao Portezuelo Queulat, topo da montanha e passagem alta (paso) na estrada. Eu queria talvez subir a serra e parar para acampar no começo do asfalto da bifurcação para Puerto Cisnes. Mas a chuva, o frio, a mistura infernal de água, areia, barro e óleo lubrificante na corrente da bike, vão rapidamente eliminando marchas na bicicleta. Eu comecei com 30 e não demorou muito tinha meia dúzia.

Minha companhia momentânea de viagem, Becky, é mais jovem, mais forte e está menor carregada que eu, então sugeri que ela seguisse adiante e chegasse em Coyhaique em dois dias. Eu levaria quatro. Ela pensou um pouco e foi embora. Pensei que não a veria mais e lembrei que nem sequer havíamos trocado e-mails.

No pé da serra eu parei para acampar. Eu sabia exatamente onde começava a subida, onde havia uma ponte, a que distância aproximada eu estava do Rio Queulat e minha fonte de água porque levo comigo uma cópia do meu livro Guia de Trilhas Carretera Austral e mais dois aparelhos de GPS. Mas é meu livro que mais me ajuda nessas horas. Fiz meu primeiro acampamento selvagem da viagem a 30 metros do rio, escondido atrás de vegetação densa, a 100 metros da estrada, debaixo de um bambuzal pequeno. Não chovia mais e eu estava protegido do vento em terreno plano e seco. Perfeito!

No dia seguinte, depois de um fantástico café da manhã de granola, café com leite quentinho e bolachas salgadas com queijo, subi na bike revigorado, mas ainda um pouco preocupado e apreensivo. O dia estava ensolarado e sem uma nuvem no céu. Os picos nevado que permaneceram escondidos no dia anterior ofuscavam a vista com o reflexo solar. Pássaros gritavam por todos os lados.

Eu sabia que a subida da serra seria uma prova importante para mim e meu equipamento. Eu lembrava bem dessa subida da viagem de mapeamento do meu livro. Mas tem alguns elementos que não tornei públicos e que estavam me afetando enormemente... Em março minha mãe morreu, aos 75 anos e aparentemente saudável e forte. Câncer no pulmão com metástase nos ossos e depois em diversos outros órgãos. Ela resistiu 45 dias do momento do diagnóstico até o falecimento. De março para cá eu praticamente não pratiquei esportes, não treinei. Esse ano completo 50 anos (mês que vem) e de repente, talvez até naturalmente, comecei a imaginar quanto tempo de vida ainda me restaria... Foi quando decidi fazer essa viagem, realizar esse projeto e esse sonho de uma longa viagem em bicicleta sozinho por uma das regiões mais belas e selvagens do planeta.

A serra de Queulat era então minha prova de admissão, meu vestibular patagônico nessa viagem. Se algo fosse dar errado, como uma distensão muscular, uma tendinite, uma falha no equipamento, imaginei que seria ali. Mentalmente me preparei para três horas de sofrimento e para empurrar a bike e o bike trailer praticamente todo o trajeto. Mas, olha ele aí de novo, o dia estava tão especial, tão lindo, os picos nevados baixando lentamente à altura dos meus olhos, as fontes de água cristalina de degelo escorrendo calmamente ao lado da estrada entre flores e borboletas, o sol esquentando em um momento, o vento gelado esfriando em outro, minha concentração no máximo ligada na bike, no meu corpo, na minha respiração, na paisagem, na temperatura, em tudo e ao mesmo tempo em nada... De repente, depois de exatos 91 minutos de esforço controlado e contínuo, eu estava no Portezuelo Queulat e no topo da montanha. Foi quase uma surpresa. Fiz fotos, gravei um depoimento em vídeo e, sem mais nem menos, comecei a chorar.

Acho que esse momento vai marcar o restante da viagem, que esta apenas começando. Imediatamente depois dele passei a me sentir mais forte, mais jovem, melhor disposto, mais confiante. Essa serra de alguma forma me ajudou a desconectar minha mente de doença, morte, perda e tristeza.

Cheguei à Villa Amengual e, para minha total surpresa, encontrei a Becky lá. Ela também havia feito um acampamento improvisado no meio do caminho, na varanda de uma das únicas construções antes do trecho de serra. Voltaríamos a pedalar juntos até Coyhaique, como era o plano original.

Na manhã seguinte à noite de descanso em Amengual, levei um baita susto... Ao conectar meu bike trailer à bike, para começar a pedalar de manhã, o eixo traseiro da bike quebrou. Foram alguns segundos de puro pânico. Imaginei que a viagem estaria comprometida e que teria que, pelo menos, pegar uma carona até Coyhaique 118 quilômetros adiante. A dona da pensão, Veronica, indicou o mecânico da vila, Don Claudio, como a única possível solução ao problema. Em pouco mais de uma hora ele soldou dois parafusos longos para mim e improvisou um eixo, que me trouxe são e salvo até aqui. Uma obra de arte forjada por dedos grossos, rachados e imundos de graxa! Na hora de pagar a conta, perguntei quanto lhe devia e ele respondeu: "El que dice su generosidad"... O que disser sua generosidade.

Além de bom mecânico, um poeta e um cavalheiro.

Nesse dia, lutando contra um vento constante e frio, cruzamos caminho com um casal de ingleses puxando um carrinho de bambu e duas rodas de bikes de sucata. David e Katharine estão no começo do 5000 Mile Project e vão percorrer a pé, puxando a tal carroça, toda a extensão da América do Sul, do Cabo Froward (onde estive em fevereiro com minha mulher, Adriana, fazendo trekking) até a costa da Venezuela. Ficamos meia hora batendo papo, trocando informações, estudando mapas, filmando depoimentos e nos conhecendo um pouco. Eu, obviamente, estava nas nuvens, encontrando assim na estrada o tipo de gente com quem mais me identifico. Trocamos e-mails e prometemos manter contato. Vou tentar arrastá-los de alguma forma para São Paulo, para minha casa, para apresentá-los aos amigos aventureiros que apreciam o que eu aprecio.

E, agora, aqui estou em Coyhaique, no Patagonia Hostel, administrado pelo casal alemão Thomas e Kathrin, que vivem na Patagônia há 12 anos e já produziram um guia de cicloturismo da Carretera Austral que eu conhecia de vista, pela internet, mas nunca havia tido nas mãos porque está esgotado há vários nos. Novamente, membros dessa irmandade de aventureiros que parece cercar minha vida.

Amanhã começo a pedalar novamente em direção sul, rumo a Puerto Ingeniero Ibañez e Perito Moreno, na Argentina, para da a volta ao Lago General Carrera e chegar a Chile Chico.

 



Guilherme Cavallari
clubedaaventurakalapalo.blogspot.com.br