Transoceânica
da redação, Texto: Fábio Almeida
17 de março de 2013 - 23:10
 
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  • Foto: Fábio Eduardo da Silva
    Subindo e subindo... Foto: Fábio Eduardo da Silva
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    Samaúma " Foto: Fábio Eduardo da Silva
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    Boa sinalização " Foto: Fábio Eduardo da Silva
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    Estradas do Acre rumo a Assis Brasil " Foto: Fábio Eduardo da Silva
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    Folhas de coca e Llipta (cal negra e aditivo potencializador dos efeitos da coca) " Foto: Fábio Eduardo da Silva
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    Visual depois de subir um pouco " Foto: Fábio Eduardo da Silva
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    Hualla Hualla - Uma das montanhas sem neve mais altas da região (4321 msnm) " Foto: Fábio Eduardo da Silva
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    Contemplando e agradecendo " Foto: Fábio Eduardo da Silva
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    Variedade, qualidade e cores naturais... " Foto: Fábio Eduardo da Silva
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    Comércio de carne em pleno meio da rua. Pode-se escolher a parte que quiser do aminal. " Foto: Fábio Eduardo da Silva
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Subindo e subindo... Foto: Fábio Eduardo da Silva

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Fábio Eduardo da Silva, ou FES, como é conhecido, é o primeiro personagem de uma série de entrevistas com grande cicloturistas. Morador de Bauru, no interior paulista, o administrador e professor de Física realizou em 2011 um grande sonho: pedalar pelos Andes. De quebra, conheceu a floresta amazônica, sua beleza e destruição. A o dia-a-dia da aventura ele contou em seu blog, “Vivendo pelo olhar da bicicleta“, mas aqui ele fala sobre o planejamento, os aprendizados e um pouco da filosofia de viajar de bicicleta. Confira.


Quais foram os critérios que você usou para definir este roteiro? O que mais te atraiu?
Desde pequeno sempre quis conhecer os Andes. Ficava impressionado com as imagens que via, achava aquilo muito distante de mim, pois durante muito tempo o lugar mais distante que tinha viajado era de Bauru até o litoral paulista, e isso de carro. O tempo foi passando, mas a ideia de conhecer pessoalmente os Andes nunca sumiu. Comecei a viajar de bicicleta ainda adolescente, então um dia pensei: “Vou para os Andes de bicicleta”. Um devaneio, pensei, mas ali nascia parte do sonho. Em 2006 um grande amigo com quem já tinha viajado duas vezes de bicicleta me mostrou um exemplar da antiga e ótima revista “Os Caminhos da Terra”, era a edição de aniversário e na capa a chamada: “Transoceânica: Do Acre ao Pacífico”… Li a reportagem e vi as fotos inúmeras vezes, aí meu amigo provocou: “Vamos pedalar lá?”. Disse: “Vamos sim!!!”. Ali o sonho de menino cresceu e ganhou corpo, amadureceu. Ainda teria a oportunidade de conhecer um pouco da Amazônia, região que também sempre quis conhecer. De 2006 até 2010 eu tentei ir para lá, já tinha estudado o caminho, sabia muito bem o que queria. Mas nunca deu certo, cada ano acontecia algo complicado na vida e o sonho foi ficando engavetado. Existe uma janela nas estações do ano em que é melhor ir para lá, sempre nos meses do final do inverno, e, por incrível que pareça, sempre acontecia algo na vida antes disso… Mas em 2011 decidi que iria de qualquer maneira. Já era hora de tirar o sonho da gaveta e tentar realizá-lo! Comecei a me organizar. Sei que minha viagem começou muito tempo antes, foi quando tive a ideia e o sonho nasceu, mas em 2011 estava decidido a realizar a viagem realmente. Além de conhecer a Amazônia, conhecer e subir os Andes de bicicleta eu ainda teria a oportunidade de ir até Machu Picchu, poderia conhecer bem o Peru, suas pessoas, sua cultura, estar mais perto de outras realidades. Passaria por muitos locais ainda não explorados pelo turismo de massa, poderia viver algo muito engrandecedor pra mim. Tudo isso me motivou e me atraiu.

Você fez alguma preparação física ou alimentar para a viagem?
Nunca fui de academia ou de treinamentos. Sempre gostei de pedalar e correr. Nunca fui sedentário. Mas para esta viagem eu sabia que precisaria de um preparo melhor devido ao clima, altitude e grande bagagem que levaria. Resolvi eu mesmo me organizar com isso, então comecei a correr de leve, pedalar mais e mais, praticar alongamentos e tentar reeducar a respiração. Não fui muito disciplinado, mas consegui melhorar um pouco a forma física. Sentia-me preparado neste sentido. Já com a alimentação, não tive nenhum cuidado especial, continuei no mesmo esquema que sempre fiz. Só venho, faz é tempo, tentando melhorar minha alimentação, no sentido de comer melhor, coisas mais saudáveis.

Em seu relato, você cita bons exemplos do Acre. O que mais te surpreendeu por lá?
Sim! O Acre me surpreendeu demais. Gostei muito do povo de lá. São muito patriotas, gostam e têm orgulho de serem brasileiros. Talvez por terem tido que conquistar a terra onde vivem. São pessoas muito boas, olham no seu olho para falar, e fui muito bem tratado onde quer que estive. Além disso, o poder público do Acre me surpreendeu, pois estão pensando em cidades para as pessoas. Claro que seguem o modelo rodoviarista enraizado na mente brasileira, mas também contemplam outras formas de locomoção e de organizar as cidades.

Como foi pedalar no calor amazônico?
O calor amazônico é algo bem complicado. Bauru é uma cidade quente e estou acostumado a pedalar no calor daqui. Também já estive em Cuiabá e no Pantanal Norte viajando de bicicleta. Lá o calor é intenso também. Mas no Acre, principalmente, tive grandes dificuldades. A temperatura e a sensação de calor eram muito grandes. Tinha que acordar bem cedo e sair pedalando ainda no escurinho. Até umas 10h,10h30 conseguia pedalar, depois disso era bem complicado. Neste horário a temperatura já chegava aos 45ºC, 50ºC facilmente. Então eu parava em alguma boa sombra e ficava lá até umas 15h,16h, quando voltava a pedalar. Num dia que pedalei além deste horário da manhã acabei ficando com a pele queimada por baixo da roupa que usava (sempre uso roupas longas para pedalar, calça e camisa). Depois disso, nunca mais abusei. Além de tudo, ainda tinha que lidar com a água, pois se passa por longos trechos sem ter onde se abastecer. Com isso eu levava uns 7, 8 litros de água comigo e tinha que tomar ela quente mesmo. Acabei acostumando. Por dia em chegava a tomar mais de 10 litros de água e ainda assim, durante a noite, sentia uma sede que não tinha fim. Assustei, mas não fiquei desidratado. É preciso cuidar bem destes quesitos numa viagem pra lá.

E a experiência com a tão famosa floresta, foi a esperada?
Foi e não foi. Eu já sabia que veria bons pedaços desmatados, mas não achei que seria tanto. Pela imagem do satélite da região já é possível perceber, agora vendo isso lá pessoalmente é outra história. Mas também tive a oportunidade de conhecer um pouco do interior da floresta numa comunidade de seringueiros. Lá, fiquei encantado com a floresta. Vi toda a grandeza e especialidade da mata. Mas não só, pude entender também a fragilidade do ecossistema e a importância de deixa-la “mais em pé”. Pude até sentir a diferença de temperatura em regiões devastadas de regiões com a floresta mais preservada. A floresta regula o clima e não deixa o calor ser tão forte. E depois ainda dizem por aí que cortar árvore não aquece o planeta…

Sobre o Peru, o que há de igual, no aspecto cultural, com o Brasil?
Acredito que quase nada. Eles são basicamente descendentes de indígenas, trazem além dos traços físicos a cultura forte deste povo. Aqui nós muitas vezes esquecemos e até negamos esta ascendência. Eles possuem a cultura muito forte, festejam muito. Talvez nisso se pareçam com os brasileiros, mas festejam principalmente a cultura e raízes que possuem, de maneira muito tradicional e bonita. Sempre me encantava com as festas nas cidades, com os trajes típicos, com a conservação da língua Quechua. Eles gostam muito do Brasil e até se contaminam um pouco com nossa cultura no sentido em que querem ser como os brasileiros. Pensam no Brasil como o país mais desenvolvido na América Latina. Infelizmente não sabem bem ainda como as coisas realmente são no Brasil. Sempre que falava que era brasileiro a frase mais falada era: “Brasil! El más grande del mundo”. Em espanhol “más grande” significa maior em tamanho, mas eles aumentam ainda mais este sentido, além de acharem que é o maior país em território do mundo, ainda pensam que o Brasil é um país altamente desenvolvido. Infelizmente a situação que vivem é muito pior. E claro, como todos os latinos, mesmo com todas as dificuldades ainda possuem o sorriso no rosto e otimismo vivo.

E o que há de diferente?
É como falei na questão anterior. O amor à cultura e raízes que possuem. Penso que isso seja o fator mais marcante de diferença. Têm orgulho de serem peruanos como são. Além disso, na questão política e de desenvolvimento, estão em situação bem mais complicada que nosso país. Foi bem triste descobrir que ainda é um país explorado por outros mais fortes.

Como foi pedalar na altitude e no frio? Enfrentou até neve, não?
Pedalar na altitude foi bem complicado e desafiador. Aqui no Brasil não chegamos às grandes altitudes dos Andes, então não sabemos bem como reagiremos, além do que a maior parte de nós vive em baixas altitudes. Procurei ir me aclimatando, ou seja, ir subindo devagar e ficando um tempo parado em alguns vilarejos para o corpo se acostumar gradativamente. Mas acima dos 3.500 metros a coisa complica bastante O ar se torna muito mais rarefeito. Usei a receita de mascar as folhas de coca também. Sem isso, não sei como seria. Inclusive, todos os peruanos que vivem nas grandes altitudes mascam coca, além de tomarem o chá de coca também. E aqui não vamos confundir com a droga cocaína, são coisas bem diferentes. Mas quando atravessei o maior passo de montanha a 4725 metros de altitude senti todos os sintomas do mal da altitude. Fiquei com forte dor de cabeça, ânsia, desorientado, respirando com grande dificuldade e com o raciocínio mais lento. Mas mantive a calma e fui indo bem devagar. Consegui chegar e ficar um tempo apreciando a paisagem única das grandes altitudes. Depois desci. Mas depois de uma semana pedalando acima dos 3.000 metros fiquei bem aclimatado e já não sentia o mal de altitude.

Já o frio foi mais tranquilo. Quando se está com bons equipamentos, o frio não é um grande problema. Basta sempre se manter quente e seco. Mas é preciso ter muita atenção, pois qualquer vacilo com o controle da temperatura as coisas podem se complicar, ainda mais quando se está viajando sozinho e acampando. Cheguei a pegar uma pequena nevasca nas grandes altitudes. No começo nem sabia o que era, mas quando entendi fiquei muito emocionado. Difícil de descrever, mas muito gratificante.

Reparei que, ao contrário de outros viajantes, você não detalha diariamente coisas como distância percorrida, tempo de estrada, dinheiro gasto ou pneus furados. Por quê?
Se me permite a sinceridade, particularmente não considero estas informações tão importantes, pois são coisas intrínsecas do viajar de bicicleta. Só relataria caso algo saísse da “rotina”, como quando comentei sobre ter pedalado mais de 140 km num dia para sair da região dos garimpos no Peru. Viajar de bicicleta pra mim significa estar em contato direto com o ambiente, com as pessoas, com as paisagens, com a natureza. Nossa janela é o todo ao nosso redor, e podemos exercitar todos os nossos sentidos. Realmente vivemos cada espaço percorrido, cada contato humano, cada reflexão pessoal, cada grau de temperatura ou metro de altitude, cada visão espetacular, cada lágrima, cada sentimento mais a flor da pele. Em meu pequeno ponto de vista isso se mostra muito mais importante de tentar ser relatado do que números que pouco servem para este mundo de vivências intensas de quem se permite viver. Claro que tenho estes números, afinal preciso controlar algumas coisas, como as finanças ou mesmo quanto ainda falta de distância até algum ponto que queria chegar, mas, em geral, não dou prioridade para estas informações.

Usa GPS? Por quê?
Esta foi a primeira viagem em que levei um GPS, mas foi só para marcar o caminho. Para viajar e descobrir locais, direção, estradas, eu sempre vou perguntando para os moradores e pessoas locais. Também estudo um pouco do caminho antes e sei as principais distâncias com base em mapas impressos e nas imagens de satélite por computador. Mas não levo computador, pesquiso antes de viajar. Levar o GPS nestaviagem foi interessante, mas é mais um equipamento para se preocupar, ter que carregar pilhas ou baterias, ter cuidado no manuseio e armazenamento das informações. Dá certo trabalho a mais e ainda não sei dizer se é realmente tão importante ou mesmo útil.

Sentiu solidão? Manteve contato com família ou amigos?
Não senti solidão. Por mais que estivesse viajando sozinho eu sempre estava perto de pessoas quando parava num vilarejo, propriedade rural ou cidade. Sempre viajo buscando mais contato humano com quem vive por onde passo. Mas teve momentos em que senti falta de ter alguém conhecido, ou mais próximo, por perto. Por exemplo, quando se chega a um lugar incrível, ou mesmo quando se passa por alguma grande dificuldade. Mas lido bem com isso. Não tenho problemas em viajar sozinho.
Mantive contato com minha família, não diariamente, mas quando era possível. Sempre quando ia passar por locais de difícil comunicação eu avisa minha família que ficaria “x” dias sem me comunicar. Só levei o telefone celular para funcionar como despertador, só ligava de telefones públicos. Já com os amigos não mantive muito contato. Apenas alguns e-mails. Também escrevi alguns relatos do Blog durante a viagem, mas isso se mostrou ser bem complicado, pois não levei um computador, fazia isso em casas de internet pelo caminho. Investia muito tempo nisso e da metade da viagem pra frente deixei de fazer. Preferi conhecer e viver mais onde estava.

Há algum projeto de viagem em preparação? Qual?
Sim! Tenho alguns projetos em mente, sim. Sempre que volto de uma viagem já estou pensando em outra. Quero conhecer a América Latina de bicicleta, nem que isso leve muito tempo e investimento meu. Então penso em viajar por outros países. Talvez subir o continente a partir de Cusco, no Peru (local mais ao norte que cheguei), ou então seguir sentido sul a partir de La Paz, na Bolívia. Nada está definido ainda, mas penso em seguir viajando por nossa linda e rica América Latina.