Afinal, aonde queremos chegar?
Texto: Fabiana Atallah
25 de janeiro de 2014 - 11:52
 
 
 
  • Foto: John Stanmeyer
    Paul Salopek em sua 'Caminhada para Longe do Éden' onde percorrerá 33 mil quilômetros, da África à América do Sul, em sete anos. A pé. Foto: John Stanmeyer
  • Arte: National Geographic Magazine
    Caminhada para Longe do Éde" Arte: National Geographic Magazine
  • Foto: Divulgação
    Ladakh, um trekking sobre o rio Zanskar semicongelado." Foto: Divulgação
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Paul Salopek em sua 'Caminhada para Longe do Éden' onde percorrerá 33 mil quilômetros, da África à América do Sul, em sete anos. A pé. Foto: John Stanmeyer

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É engraçado como algumas questões essenciais, que estão constantemente nos rodeando e fazendo parte de tudo o que somos e queremos em nossa vida, somente despontam à nossa mente com clareza ou, melhor dizendo, quase se materializam à nossa frente, em momentos de completa quietude. Assim, sem querer. Nossas tomadas de decisões, inúmeras vezes ao dia, sempre têm um fio condutor, um norte, uma indicação, dentro de nós mesmos e segundo nossos valores, que nos fazem seguir por este ou aquele caminho. Isso abrange desde as coisas mais corriqueiras da vida, como decidir o que comer ou vestir, até escolhas importantes que, quem sabe, podem (re)definir totalmente nosso rumo, como a profissão que vamos abraçar ou se teremos ou não teremos filhos.

Hoje vivi um desses momentos especiais, de absoluto silêncio e mente quieta - coisa rara na loucura de vida que todos levamos - que me fez enxergar algo misterioso, intrigante e, ao mesmo tempo e paradoxalmente, absolutamente óbvio. Nesse delicioso instante em que eu fazia companhia para mim mesma, comecei a ler o texto do jornalista e escritor Paul Salopek, na revista National Geographic Brasil de Dezembro de 2013. Trata-se do primeiro capítulo de uma jornada iniciada há cerca de um ano, intitulada "Caminhada para Longe do Éden” ou, em sua versão original, Out of Eden Walk. Paul percorrerá 33 mil quilômetros, da África à América do Sul, em sete anos. A pé. Atitude extrema! Será?

Nossos gostos e paixões certamente têm um peso especial na escolha de nossos caminhos, nossos destinos. As necessidades de cada um também pesam e muito. Mas isso, e tudo mais que envolve as nossas escolhas, na verdade depende da resposta a uma única pergunta: o que queremos da vida?
Tão simples e tão complicado... O que faz um renomado jornalista, já ganhador do prêmio Pulitzer¹, colocar os pés na estrada (literalmente) para percorrer lugares extremamente remotos, ambientes inóspitos, correr os mais diversos perigos, no intuito de refazer o trajeto já percorrido por nossos ancestrais? Será a busca por um recorde? Ou a tentativa de fazer algo inédito e, então, passar a ser identificado com o tão perseguido título de “aquele que primeiro fez”?

A resposta ele mesmo dá, e não tem nada a ver com medalhas ou honras ao mérito. Em suas palavras, a decisão de refazer os passos dados há mais de 60 mil anos, indo da Etiópia à Terra do Fogo caminhando, é para reaprender os contornos do nosso planeta na velocidade humana de 5 quilômetros por hora. Para viver em um ritmo mais lento. Para pensar. Para escrever. Tudo na tentativa de recuperar conexões importantes que se perderam devido à aceleração artificial, à falta de atenção². Ele quer, enfim, sentir o caminho.

Agora, neste mês de Janeiro, eu havia me programado para estar no extremo norte da India, na região de Ladakh, para um trekking sobre o rio Zanskar semicongelado. Viagem lindíssima, em lugar remoto, com cultura local intocada e adrenalina a cada passo. Tudo o que nós aventureiros mais queremos e buscamos, na eterna ânsia de viver intensamente e sugar do mundo tudo o que pudermos. No entanto, por livre e espontânea vontade, decidi não ir para o Himalaia Indiano. Terei um ano, para minha enorme felicidade, repleto de tudo o que gosto. Seja a trabalho ou em momentos de descanso, vou escalar e fazer trekkings na Tailândia, no Nepal, na África, na Mongólia, no Quirguistão, na Rússia, no Japão, na Argentina. Então resolvi que neste mês, em vez de aproveitar a grande oportunidade de conhecer uma das regiões mais lindas do planeta, eu dedicaria meu tempo e minha atenção à minha família. Afinal, seu amor também me serve como combustível para permanecer rodando por esse mundo afora feliz e em paz. A matemática é sempre a mesma, para cada escolha há certamente uma renúncia.

Não que a admirável história de Paul Salopek, de passar sete anos de sua vida percorrendo solitariamente os 33 mil quilômetros explorados pelas primeiras migrações humanas do planeta, tenha algo a se comparar com minha mera decisão de desistir de uma viagem de vinte dias para ficar em casa. Mas é aí que está o mistério (ou seria a obviedade?). Tanto a grandiosa epopeia do jornalista quanto o aconchego da casa dos meus pais têm origem em decisões tomadas com base em um único ponto: aquilo que verdadeiramente queremos naquele exato momento de nossas vidas.
Se conseguíssemos ficar mais em nossa própria companhia, realmente olhando para dentro de nós, sem rótulos pré-definidos e sem julgamentos, certamente poderíamos agir com mais sabedoria. É assim que atitudes aparentemente extremas – como a de Paul Salopek, por exemplo - podem ser, no fundo, muito comedidas e bem ponderadas.

Aonde quero chegar? É simples. Quero apenas atingir aquele ponto em que, esteja onde estiver, estarei sempre bem comigo mesma simplesmente por ter agido conforme meus reais sentimentos, minhas escolhas. Atingir este ponto, isto sim, não é tão simples. Demanda ação e coragem, já que tantas vezes sabemos o que queremos, ou pelo menos o que não queremos, mas deixamos tudo como está. Não agimos.

Mas, como diz Salopek, andar é cair para frente. Cada passo é uma queda interrompida, um colapso evitado, um desastre contido. Por isso o ato de andar é também um ato de fé³. Então vou andando, sentindo o meu caminho e fazendo minhas escolhas.

 
 
 
¹ Paul recebeu o prêmio Pulitzer de jornalismo em 1998.
² Fonte: National Geographic Brasil – Dezembro 2013 – pág. 41
³ Fonte: National Geographic Brasil – Dezembro 2013 – pág. 40