Extremos
 
O EDITOR ELIAS LUIZ
 
A tragédia do morto mais famoso do Everest
editor: Elias Luiz | texto: Rachel Nuwer
tradução: Daniela Silvestre
revisão: Roque Aloísio
19 de novembro de 2015 - 18:00
 

Tsewang Paljor, o Botas Verdes.
 
  Elias Luiz  

O Monte Everest é o sonho de todo alpinista, mas também é a morada de mais de 200 corpos. Dando continuidade ao Especial do Everest do EXTREMOS, a repórter Rachel Nuwer investiga a história triste e desconhecida por trás de seu residente de mais destaque, “O Botas Verdes” – e descobre os efeitos devastadores que essa montanha mortal pode causar na mente e no corpo.

“Está claro que o risco de o jogador [o montanhista] perder é grande: é questão de vida ou morte… Para ganhar o jogo, ele tem de,primeiramente, alcançar o cume da montanha – mas, além disso, precisadescer em segurança. Quanto mais difícil o caminho e mais numerosos forem os perigos, maior é a sua vitória”

George Mallory, 1924

Como se cochilando, o escalador deita de lado dentro de uma sombra protetora de uma pedra pendendo. Ele colocou seu fleece vermelho sobre o rosto, para afastá-la de sua vista e envolveu seus braços firmemente às costas para repelir o vento e o frio cortante. Suas pernas esticadas na via, forçando os passantes a pular cautelosamente suas botas de escaladas verdes neon.

Seu nome é Tsewang Paljor, mas a maioria, que o encontra, o conhece apenas como Botas Verdes. Por quase 20 anos, o corpo dele, localizado não muito longe do cume do monte Everest, serviu como um marco na trilha para aqueles que almejam conquistar a montanha mais alta do mundo por sua face norte. Muitos perderam as suas vidas no Everest, e, assim como Paljor, a vasta maioria deles permanece na montanha. Mas, o corpo de Paljor, graças a sua notoriedade, se tornou o mais conhecido.

 

Tsewang Paljor, quando jovem. Foto: Rachel Nuwer
 

“Eu diria que todos, especialmente aqueles que escalam na face norte, conhecem o Botas Verdes ou já leram sobre o Botas Verdes ou já ouviram alguém falando sobre o Botas Verdes,” diz Noel Hanna, um aventureiro que subiu ao cume do Everest 7 vezes. “Algo em torno de 80% das pessoas também descansam no abrigo onde o Botas Verdes está, e é difícil não perceber que há uma pessoa deitada lá.”

Com a morte de Paljor, surgiu uma onda de controvérsias, incluindo-se ele e os outros dois colegas de equipe morreram por causa de outros escaladores, que, nas suas próprias luxúrias de chegar ao cume, insensivelmente ignoraram os sinais de aflição deles. No entanto, informação escassa sobre o homem está disponível por trás do apelido. Digite “Botas Verdes” em uma pesquisa do Google e você vai saber que Paljor, juntamente com seus parceiros de escalada, Tsewang Smanla e Dorje Morup, morreram, em 1996, durante uma tempestade imortalizada pelo livro best-seller de Jon Krakauer “No Ar Rarefeito” e, mais recentemente, no thriller de grande orçamento Everest. A Wikipédia de Paljor conta que ele era membro da polícia de fronteira Indo-Tibetana, e que tinha apenas 28 anos de idade quando perdeu a vida.

Eu admito sentir certa curiosidade mórbida ao pensar em Paljor e nos outros escaladores que caíram na montanha, abandonados longe dos entes queridos, e ficando congelados no tempo para sempre, tendo visto o momento de suas mortes. Porém, mais que a fixação no macabro, eu gostaria de conhecer a história do lindo jovem de botas verdes – especialmente as circunstâncias que o fizeram permanecer na montanha por tantos anos.

Eu também estava intrigada com o que a altitude extrema pode fazer com o corpo e a mente humana, e o inesperado impacto que isso pode ter nas decisões – até na ética – de uma pessoa, mas, ultimamente, eu queria respostas para outro questionário mais preciso; aquele um que foi levantado inúmeras vezes, mas que parece se esvair em explicações: Por que escalar essa montanha? Por que jogar com a vida em suas encostas imperdoáveis? Segundo os registros de Alan Arnette, um montanhista residente no Colorado cujo blog é uma fonte verídica de informações sobre o Everest, de 1924 a agosto de 2015, 283 pessoas morreram na montanha – 170 estrangeiros e 113 Nepaleses – levando a uma taxa global de mortes de 4%. Como é que tantas pessoas ainda veem esse esforço valer a pena?

Meu desejo em responder a essas questões – em uma série de duas partes para a BBC – me levou para baixo, em uma toca de coelho em psicologia, ética e cultura de escalada; às pegadas de lendas do montanhismo assim como de pais com corações partidos; em fontes abrangendo Fukuoka, Califórnia e Kathmandu. Esta é a minha tentativa de fazer tudo que eu encontrei ter sentido.

 

Ladakh fica na sombra das grandes montanhas dos Himalaias.
 

Um lugar alegre

Assim que o avião decola e se dirige ao norte de Nova Delhi, a poluição da cidade e o congestionamento, rapidamente, desvanecem de vista, substituídos por planícies rurais marrons, colinas verdes e campos com terraços.

A paisagem, entretanto, apenas começou a crescer em escala e esplendor. Colinas sobem a alturas cada vez maiores, libertando-se de vilarejos, campos e vegetação – e, assim, de qualquer remanescente de vida. Denteados picos de montanha, beijados por neve, se alongam ainda mais alto, como que tentando arrancar nossa minúscula embarcação do céu. Cá e lá, um rio e um vale pontuam uma paisagem monocromática com uma fita verde, uma linha de vida em um ambiente inóspito. Nós quase alcançamos o nosso destino. O avião começa a descida, e a voz do comandante crepita no alto-falante: “Espero que vocês tenham deixado todas as suas preocupações em Delhi, assim vocês terão uma estadia ótima em um lugar cheio de alegria.”

Estávamos na região de Ladakh, “proprietária dos passes,” que repousa ao norte da Índia, às sombras do grande Himalaia. É início de setembro, quando os dias são brilhantes e quentes, mas as noites já rastejam abaixo de zero.

Foi aqui, neste deserto com altitude de 3.800 m, que Tsewang Paljor nasceu em 10 de abril de 1968. Ele cresceu em Sakti – “O trono de ouro” – um lugarejo em um vale idílico com casas pintadas de branco, campos de cevada e árvores de álamo.

 

Chegando na casa da mãe de Paljor, sem saber o que esperar.
 

Partimos cedo para Sakti, na quarta-feira, seguindo o curso do azul brilhante Rio Indus, passando por monastérios de tirar o fôlego, restaurantes empoeirados de beira de estrada e planícies transcendentais de rocha e terra estéril. Eu viajei com Tsultim Dorjey, um sociólogo e guia que estava servindo como meu salva-vidas local.

Nós não tínhamos contatado previamente a família de Paljor, acreditando nas nossas chances de convencê-los a falar conosco sobre um assunto tão delicado, pois seria melhor se descrevêssemos nossa missão pessoalmente. Agora, eu estava atormentada com a dúvida. Será que eles iriam se recusar a falar com a gente? Ficariam ofendidos? Teria alguém em casa?

Aproximadamente uma hora após deixar Leh, nós estávamos perto. Tsultim pulou do carro, aproximando-se de um senhor, que estava dedilhando contas em prece budista ao lado da estrada. Perguntou ao homem onde ele poderia encontrar a fazenda de Fana – Sobrenome da família de Paljor – e o homem começou a gesticular em direção estrada abaixo. Em locais como Sakti, com população estimada em 300 famílias, todos se conhecem. “Não está longe agora,” avisa Tsultim, subindo de volta no carro.

Minutos depois, chegamos ao portão marrom, em frente a uma casa de dois andares, com janelas largas e bandeiras de oração esvoaçantes adornando o telhado. “É aqui, Tsultim” disse ele. “Cruze os dedos.”

Meus temores, no entanto, ficaram aliviados quando Tashi Angmo, a mãe de Paljor, abriu a porta. Aos 73, seus olhos cintilantes e face sua sorridente pareceram uma década mais jovem. Calorosamente como uma avó, ela nos saudou energicamente – “Julay” - e acenou para que entrássemos, sem nem mesmo perguntar quem éramos ou por que estávamos lá.

Entramos na sala de estar, forrada com sofás, ornada com mesas entalhadas e fotos em formato de pôster dos seus netos. Depois de buscar uma jarra de chá fumegante e um prato de biscoitos, ela e Tsultim trocaram sutilezas por alguns minutos. Eu não compreendia Ladaki, entretanto, reconheci o momento em que Tsultim revelou o verdadeiro propósito da nossa visita. O rosto de Tashi Angmo que, até agora, era todo sorrisos, abruptamente desmoronou, anestesiando sua expressão ao falar sobre os anos de angústia e sofrimento. Ainda, quando Tsultim perguntou se poderia prosseguir com a entrevista, ela disse que sim.

Uma criança, bastante mediana, com cinco irmãos Paljor, era conhecida na vila por sua maneira educada e compassiva. Ele tinha um grande coração e uma bondade natural. Embora com boa aparência, mesmo, quando adolescente, Paljor nunca teve uma namorada – ele era muito tímido. Uma vez, ele contou ao seu irmão que estava mais interessado em dedicar sua vida para algo grandioso do que se casar.

Como filho mais velho, Paljor, sem dúvida, se sentia pressionado a prover a sua família, que estava lutando para fazer frente às despesas da sua modesta fazenda. Então, após completar o 10º ano, ele abandonou a escola e tentou entrar para a Polícia de fronteira Indo-Tibetana (ITBP), cujo campus estava localizado perto de Leh, a capital industrial de Ladakh. Formado em 1982, em resposta às crescentes hostilidades da China, os homens, que serviram naquela força armada, se especializaram nas paisagens de grande altitude – uma necessidade dada que a fronteira da Índia com seu vizinho dominador se estende por todo o Himalaia. Para o deleite de Paljor e de sua família, ele conseguiu.

Ele deve ter pensado que, se escalasse o Everest, isso traria benefícios para a família

Tashi Angmo apoiou muito a posição dele no ITBP, mas ele pressentiu que esse apoio, certamente, não iria se estender até o topo da montanha mais alta do mundo. Então, quando ele foi selecionado para integrar um grupo de elite de escaladores que iriam se arriscar em uma missão grandiosa – a de tornarem-se os primeiros Indianos a chegar no cume do Monte Everest pela face norte – ele optou por não contar a ela sobre seu verdadeiro destino. “Ele contou uma pequena mentira, que iria escalar uma montanha diferente,” disse sua mãe. “Mas ele também contou a alguns amigos o que estava fazendo na verdade e isso acabou chegando a nós.” Embora a carreira de Paljor já incluísse a conquista com sucesso de alguns outros picos, e as prateleiras de Tashi Angmo fossem repletas de certificados e prêmios, o Everest a golpeou por ser um local extremamente perigoso. Ela implorou ao filho para ele não ir, mas ele lhe disse que precisava ir. “Ele deve ter pensado que, se escalasse o Everest, isso traria benefícios para a família,” disse ela.

 

Na estrada para Shakti.
 

Mas, o irmão mais novo, Thinley Namgyal, não estava preocupado. Seu irmão era a pessoa mais forte que ele conhecia. “Quando ele vinha para casa de férias, nós costumávamos jogar e chutar a barriga dele, porque parecia como uma pedra,” diz ele. “Eu sempre pensei nele como um tipo de Super-homen.”

Thinley, que é monge, encontrou Paljor em Delhi, dias antes de ele partir; ele deu ao irmão uma benção antes de dizer adeus. “Ele tinha acabado de passar nos exames médicos, e estava tão ansioso em ir para o Tibet,” disse Thinley. “Ele não estava nem um pouco nervoso. Ele estava realmente feliz com tudo.” Thinley foi o último membro da família a ver Paljor vivo.

Paljor era jovem, forte e experiente, mas o Everest apresenta milhares de vias para tirar a vida mesmo dos escaladores mais preparados – quedas, avalanches, exposição ao frio e à altitude e muito mais. Os corpos de muitos alpinistas perduram na montanha. Morte súbita – de ataques cardíacos, batimentos cardíacos irregulares, asma ou exacerbação de alguma doença pré-existente – não é incomum. A falta de oxigênio pode desencadear edema pulmonar ou edema cerebral: condições com risco de morte que ocorrem quando os líquidos dos vasos sanguíneos extravasam para dentro do pulmão e do cérebro.

Eu fiquei surpreso como poucos Sherpas morrem em grandes altitudes

No entanto, nem todos, na montanha, divulgam as possibilidades de morrer sob qualquer circunstância. Em um estudo retrospectivo de 212 mortes de escaladores no Everest, de 1921 a 2006, Paul Firth, um anestesista do Massachusetts General Hospital em Boston, e seus colegas descobriram que a maioria das mortes dos Sherpas acontecia em baixas altitudes, refletindo o risco inevitável de atravessar a cascata de gelo do Khumbu – um campo de gelo de glaciar instável com blocos de gelo do tamanho de uma casa e fendas abertas. Mortes em altitudes maiores, por outro lado, quase que totalmente, correspondem aos clientes pagantes e guias ocidentais, e mais de 50% das mortes acima de 8.000 metros ocorreram depois que os escaladores chegaram ao cume e estavam no caminho de volta. “Eu fiquei surpreso como poucos Sherpas morrem em grandes altitudes,” diz Firth. “Mas os números são muito óbvios.”

Esses achados, provavelmente, refletem uma série de fatores, incluindo a adaptação superior dos Sherpas para condições hipóxicas, a experiência deles no Everest e a falta de vulnerabilidade deles à febre do cume – um desejo incontrolável de alcançar o pico da montanha que leva os escaladores a desrespeitar a segurança. “As pessoas tomam decisões baseadas no sucesso, não em sobrevivência,” diz Ed Viesturs, o primeiro americano a escalar todas as montanhas acima de 8.000 metros, e o quinto no mundo a fazê-lo sem o uso de oxigênio suplementar.

Quando Mark Jenkins, um jornalista, autor e aventureiro de Wyoming, estivera no Everest, em 2012, cinco pessoas morreram em um único dia. Sherpas, que ele entrevistou, disseram que a maioria das fatalidades pertencia a clientes que se recusaram a retornar. “Seu Sherpa lhe dirá, ‘você está muito lento, você tem de dar meia volta ou irá morrer,’” diz ele. “E, alguns não voltam”.

“As montanhas não matam as pessoas, as pessoas se matam,” afirma ele.

Viesturs que, uma vez, encerrou uma escalada no Everest, faltando 100 m para o cume, devido às condições não serem boas, credita a sua sobrevivência a sempre ouvir a montanha e saber quando voltar. “Minha regra era a de que escalar deveria ser uma viagem de ida e volta,” diz ele. Mas muitas das vítimas do Everest, afirma Firth, provavelmente, são pessoas que não reconhecem sinais precoces de perigo porque lhes falta uma experiência suficiente para saber o que é normal, ou, então, são escaladores experientes cujos julgamentos estão confusos pelos efeitos da altitude. Quando percebem que estão com problemas, é tarde demais.

 

Tashi Angmo, com posses de seu filho.
 

Jenkins estima que a metade de todos os escaladores do Everest hoje não é oriunda da região do Himalaia. “Não é a minha opinião, é fato,” diz ele. “O lugar mais alto onde estiveram, para a grande maioria deles, foi em um arranha-céu.”

Sem os Sherpas, 98% das pessoas não conseguiria escalar o Everest

“Sem os Sherpas, 98% das pessoas não conseguiria escalar o Everest,” concorda Bill Bierling, um jornalista sediado em Kathmandu, escalador e assistente pessoal de Elizabeth Hawley, jornalista que, aos 91, tem sido cronista das expedições no Himalaya desde os anos 60.

No Everest, as coisas estavam decorrendo sem problemas para Paljor e seus camaradas. A expedição Indiana estava bem conectada à montanha, com uma tenda luxuosa e enorme que todos os escaladores, independente da nacionalidade eram bem vindos a visitar.

O comandante Mohinder Singh, que liderava a equipe, contou-me sobre a expedição de sua casa, perto de San Francisco, onde, agora, ele administra um complexo de apartamentos: “Nós éramos o melhor grupo do mundo.”

Ele se lembra de Paljor como sendo muito falante, “como uma criança”, e que ele amava escalar rochas difíceis. “Ele parecia um macaco quando escalava,” diz Singh. Ele também lembra que Paljor adorava frango assado; a sua tendência a cantar no tempo livre; e o jeito COM que ele sempre se voluntariava para trabalhos difíceis. “Ele era muito prestativo,” disse Singh.

 

A medalha concedida após a morte de Paljor.
 

Singh confiava nas habilidades de Paljor, Morup e Smanla – eles eram todos de Ladakh, e já tinham se testado em campo. No entanto, quase imediatamente, a expedição estava marcada por “Erro atrás de erro,” nos quais os escaladores “Falharam em seguir instruções claras,” contou Singh mais tarde no seu relato oficial sobre os eventos.

Os problemas começaram na manhã de 10 de maio, quando a equipe estava atrasada por causa dos fortes ventos e então adormeceram. Eles não deixaram o campo 4 até às 8h, ao invés das 3h30min, conforme o planejado. Devido ao início extremamente tardio, eles decidiram avançar pela montanha, fixando cordas, ao invés de tentar o cume, pois isso garantiria a descida da Zona da Morte através da escuridão – a área acima de 8.000 metros onde escaladores, frequentemente, perdem suas vidas.

Por volta de 14h30min, a equipe tinha feito um progresso significativo, mas o vento começava a aumentar novamente. Singh havia dado ordens severas de voltar às 14h30m, ou 15h no máximo. Harbhajan Singh, entretanto, estava muito atrasado atrás dos três homens de Ladakhi. Quando ele acenou para que parassem e retornassem ao acampamento, ou eles não o viram ou o ignoraram. Observando-os, enquanto subiam, sofrendo de congelamento, Harbhajan Singh não tinha escolha senão retornar ao campo 4 sem eles. Falando sobre esse momento, 19 anos mais tarde, em seu escritório em Nova Delhi, Harbhajan Singh, agora inspetor geral do ITBP e beneficiário de Padma Shri, quarto maior prêmio da Índia, tem um olhar distante.

“Quando nós perdemos aquelas três pessoas, eu era o quarto, eu estava com eles,” diz ele, me contemplando. “Eu estou em frente a você hoje, mas se eu tivesse tentado, eu teria partido. É apenas por um presente de Deus que eu estou vivo.”

 

Mohinder Singh e sua esposa em sua casa próxima a San Francisco.
 

A febre do cume, suspeita ele, teria levado os seus homens.

Por último, às 15h, naquela tarde, um Singh ansioso por notícias avançava do campo base, ouviu seu rádio crepitar por vida, era Smanla.

“Senhor, nós estamos em direção ao cume,” anunciou Samanla.

Singh deu um salto para trás. “Ah não! O tempo está muito estranho, ruim.”

Smanla não parecia convencido, no entanto, apontavapara o cume que estava há menos de uma hora de distância e que os três homens se sentiam bem.

“Não seja tão autoconfiante,” insistiu singh. “Escute-me. Por favor, desça. O sol já vai ao seu pôr.”

 

Arquivos de expedições, mantidos por Elizabeth Hawley.
 

Smanla desdenhou dos avisos e colocou Paljor no telefone. “Senhor, por favor, nos deixe ir.” disse Paljor, sua voz transbordando de orgulho. Mas, então, o rádio foi cortado.

Já eram 17h35min, quando Singh teve notícias dos seus homens. Uma inundação de alívio e excitação caiu sobre ele quando Smanla anunciou que ele, Paljor e Morup estavam de pé no cume. Mesmo que Singh reiterasse a importância do retorno o mais rápido possível, ele começou a ansiar pela mensagem triunfante que iria enviar para Nova Delhi para anunciar a vitória da sua equipe.

As celebrações começaram imediatamente, tanto em casa quanto no campo de base. Os homens tinham acabado de gravar uma mensagem para o seu país. Se Paljor ou seus parceiros tinham realmente conquistado o cume foi posteriormente questionado. Krakauer e outros suspeitam de que os homens pararam, intencionalmente, 150m abaixo do cume, acreditando – devido ao crescente tempo ruim e à confusão mental provocada pela altitude – que tinham alcançado o topo. Apesar da incerteza, entretanto, eles foram creditados com a ascensão, com os troféus que Tashi Angmo recebeu mais tarde em memória do certificado de morte de seu filho. Como Singh disse: “Eles conseguiram, aceitaram que eles conseguiram e eu confirmo.”

Contudo o sentimento de júbilo no campo base teria vida curta. Pouco depois de Smanla chamar, o tempo, que já estava se deteriorando, piorou. A infame tempestade de 1996 tinha chegado, cobrindo a montanha com uma fúria de neve e vento. Tentando se acalmar, Singh dizia a si mesmo que seus homens estavam bem, que eles já tinham enfrentado tempo pior no passado. Se eles se apressassem, poderiam até chegar ao campo 4, à meia-noite. “Porém,” ele relembrou mais tarde, “Isso não aconteceu.”

Ética em 8.000 metros

Por volta das 20h da noite, quando Smanla, Paljor e Morup subiram, Singh não pôde conter sua preocupação. De acordo com o seu relato oficial, ele decidiu abordar uma equipe de escalada comercial japonesa de Fukuoka para ajudar. Dois dos escaladores, Hiroshi Hanada e Eisuke Shigekawa, planejavam partir para o cume naquela noite.

Usando um Sherpa que falava um pouco de japonês para ajudar a traduzir a conversa, Singh “pressionou o líder Japonês com a gravidade da situação.” Singh conta que, na presença dele, o líder Japonês entrou em contato por rádio com a sua equipe no campo 4 para explicar a situação e, então, disse a Singh que os escaladores japoneses iriam fazer tudo que pudessem para ajudar os indianos abandonados se os encontrassem a caminho do cume. “O tradutor Sherpa garantiu-nos, em seu nome, que os japoneses iriam tratar do problema como se o mesmo fosse deles,” descreve Singh.

 

Harbhajan Singh, líder da equipe, e o único sobrevivente da expedição.
 

Pela manhã, a tempestade tinha acabado e os japoneses puderam se dirigir ao cume. Às 9h, o líder da equipe informou Singh que seus dois escaladores tinham encontrado Morup, que estava congelado e deitado na neve. Eles o ajudaram a se clipar nas cordas fixas, mas continuaram na caminhada para o cume. “Nós estávamos consternados,” descreve Singh. “O chá preto que os japoneses nos serviram tinha gosto negro de fato.”

Duas horas depois, debaixo de um “céu claro e sereno,” os dois escaladores japoneses e seus três Sherpas passaram por Smanla e Paljor, mas novamente não pararam para ajudar. “Por que eles não deram nem uma gota de água sequer ao nosso homem que estava morrendo? E a ética no montanhismo?” pergunta Singh. “Os japoneses tinham nos deixado com poucas esperanças.”

A equipe japonesa, entretanto, mais tarde, contestou a versão dos eventos. “As acusações infundadas”, que fizeram contra eles, salientaram que tudo dependia de informações de um só lado. De volta ao Japão, eles tiveram uma conferência com a imprensa e emitiram um relato oficial declarando que Shigekawa e Hanada tinham sido informados que os indianos estavam com algum tipo de problema. Enquanto eles se encontravam com vários escaladores no caminho para o cume, Hanada disse, “Nós não vimos ninguém que parecia ter problemas ou estar morrendo.”

O relatório que eles emitiram também enfatizava que, acima de 8.000 metros, “É senso comum” que todo escalador deve cuidar de suas próprias ações, “Mesmo que à beira da morte.”

O código de ética dos escaladores, emitido pela Federação Internacional de Escalada e Montanhismo, especifica “Ajudar alguém com problemas tem prioridade absoluta sobre atingir os objetivos que estabelecemos a nós mesmos na montanha.” Muitos levam isso a sério. “Salvar a vida de alguém é mais importante do que atingir o cume do Everest 100 vezes,” diz Serap Jangbu Sherpa, a primeira pessoa a escalar todos os oito picos do Nepal acima de 8.000 metros, e o primeiro a chegar ao cume do K2 duas vezes em um ano. “Nós sempre poderemos voltar e chegar ao cume, mas uma vida perdida nunca volta.”

 

Qual é a responsabilidade deve alpinistas têm para os seus colegas alpinistas? Foto: Rex
 

“Dizer que todos devem cuidar de si mesmos, que ninguém deve ajudar outra equipe é falta de senso,” acrescenta o Capitão MS Kohli, um montanhista que, em 1965, levou a Índia a sua primeira expedição com sucesso no cume do Monte Everest. “Isso é absolutamente contra o espírito do montanhismo.”

Essas regras simples se tornam mais complicadas, entretanto, quando clientes comerciais estão envolvidos. Depois de pagar muitos milhares de dólares por passagem segura para o cume, fica menos claro que a função desses escaladores seja, se eles encontrarem alguém precisando de ajuda ou algo semelhante, também incerta até que ponto podem depender de um guia para salvar a vida do cliente com o possível custo da sua própria.

Adicione-se a isso o fato de que, acima de 8.000 metros, a tomada de decisões e habilidades de pensamento crítico está severamente debilitada. “A coisa mais próxima que consigo comparar é estar quase seriamente bêbado, mas sem ser divertido,” diz Firth. Com a diminuição do oxigênio, os planos e a moral formulados, em elevações mais baixas, frequentemente, perdem a sua clareza.

“As pessoas estão tão fascinadas com isso, enquanto estão sentadas em suas salas de estar, lendo a revista Outside - ou acompanhando a Cobertura Online do Extremos -, mas a dinâmica de como deve ser estar lá em cima é realmente dura de compreender daqui de baixo,” diz amontanhista Gulnur Tumbat, professora associada de marketing da Universidade Estadual de San Francisco. Mesmo se um escalador quiser ajudar a alguém que precise, aponta ela, ele, provavelmente, estaria colocando a sua própria vida em risco ao fazer isso. “Acima de 7.000 metros ou 8.000 metros, não há muito que se possa fazer,” diz ela. Depois de experimentar os efeitos da altitude ela mesma, ela não estava surpresa de encontrar, na sua pesquisa, que as pessoas, no Everest, tendem a ser individualistas. “Não existe, na realidade, muita camaradagem no alto da montanha,” diz ela. “Eu não estou dizendo que é uma coisa boa ou ruim – é quase que necessário ser desse jeito, dadas às condições.”

Também não ajuda que, para muitas pessoas – sem dúvida, Shigekawa e Hanada incluídos – a viagem ao Everest é vista como uma oportunidade de uma vida. A quantidade de tempo, dinheiro e energia investidos na montanha pode encorajar a tomada de decisões egoístas e imprudentes. “Há uma mística no Everest, pela qual as pessoas chegam à conclusão de que regras tradicionais não se aplicam, se isso significa o quanto estão se arriscando ou qual é o valor de atingir o topo da montanha para eles,” diz Christopher Kayes, diretor e professor de administração da Universidade George Washington em Washington D.C. “Eu acho que quanto mais perto você chega do seu objetivo, mais provável é que você chegue à racionalizações para a moral ou os valores anteriormente expostos.”

Em alguns casos, continua ele, pode significar “jogar literalmente a precaução ao vento.” Em outros, pode significar deixar para trás um escalador caído, considerado além de qualquer ajuda. (Bierling aponta, entretanto, que resgates acontecem todo ano. – Eles apenas não aparecem nos noticiários como as mortes.)

 

Local aproximado onde fica a caverna em que o Botas Verdes se abrigou e morreu na tragédia de 1996.
 

Nuvem de dúvida

Nem Shigekawa ou Hanada responderam ao pedido de entrevista para essa história, mas Koji Yada, um dos líderes dos dois homens, recordou o incidente para mim quando eu o encontrei em Fukuoka. “Como eu entendi a situação, os escaladores indianos estavam usando equipamento pesado, então era difícil dizer quem eles eram,” disse ele, acrescentando que ele não sabe se Shigekawa ou Hanada pressentiram que os escaladores não identificados estavam com problemas.

“Não tenho ideia do que eu faria se estivesse na mesma situação deles, mas eu não paro de pensar que eu não pude fazer nada,” disse ele. “Alguns podem dizer que é desumano e egoísta, mas não há nada que eu possa fazer.”

“Oito mil metros para cima é um mundo totalmente diferente,” continua ele. “Nós sempre usamos o termo responsabilidade pessoal para descrever a situação lá.”

Assim como muito do que acontece no Everest, os eventos daquele dia, em maio de 1996, são, sem dúvida, nublados por subjetividade, interesse individual e os efeitos de mentes obscurecidas pela alta altitude, e, provavelmente, nós nunca saberemos realmente o que aconteceu nas últimas horas de vida de Paljor, Smanla e Morup.

Quando as coisas dão errado, acontece um frenesi da mídia, e a reação típica é analisar o que deu errado e então destilar um punhado de lições a aprender. Algumas escolas de negócios até mesmo usam o desastre do Everest, em 1996, como uma ferramenta de ensino, mas alguns especialistas acreditam que, simplesmente, não há tomada de bom senso no que acontece acima de 8.000 metros.

“É difícil saber, com certeza, o que realmente ocorre durante um desastre em uma escalada em termos de ambição de pessoas na equipe a 8.000 metros com ventos uivantes e em um estado de hipóxia, desidratação e exaustão,” diz Michael Elmes, professor de estudos organizacionais do Instituto Politécnico Worcester em Massachusetts. “Eu não acho que eventos, como o desastre de 1996, possam ser analisados ou antecipados, e eu tenho dúvidas se existem maneiras de prevenir desastres futuros.”

Tashi Angmo tem dificuldade para relembrar os dias que se seguiram à morte do filho. Ela se lembra de dois homens da polícia de fronteira indo-tibetana chegando a sua porta e perguntando se ela era a mãe de Paljor. Eles lhe disseram que havia ocorrido um acidente no Everest, e que ele estava desaparecido. O ITBP tinha organizado um batalhão para procurá-lo, disseram eles, e tinham, até mesmo, enviado um helicóptero, masm apesar dos esforços, ele parecia haver sumido.

 

Vista de Leh.
 

Olhando para trás, agora, ela imagina se, de fato, os homens estavam dizendo a verdade. “Talvez, eles procuraram por ele, talvez, não,” diz ela. “Mas, se os esforços corretos tivessem sido feitos, eu acredito que ele pudesse ter sido encontrado e salvo.”

Após receber a notícia, já que não havia corpo, e porque os oficiais disseram a Tashi Angmo que seu filho estava desaparecido – não morto – ela passou os dois dias seguintes viajando para todos os monastérios locais, praticando thimchol, uma oferenda de bem-estar. “Seria melhor se tivessem encontrado o corpo,” diz ela. “Eu continuo esperando que ele volte, porque nunca encontraram o corpo.” Eventualmente, porém, seus parentes insistem para que ela encare a realidade. Paljor não seria resgatado, e não voltaria para casa. “Desaparecido é um termo que o ITBP usa para confortar você,” dizem eles, gentilmente, a ela.

A família realizou um funeral e também compareceu a uma cerimônia do ITBP em honra dos três homens de Ladakhi. “Eu estava como uma morta,” disse Tashi Angmo.

Seu luto foi ainda exacerbado pela amargura que logo se seguiu no ITBP. Embora os oficiais tivessem prometido à família que eles seriam bem cuidados, eles receberam a quantia de seguro de apenas $3.690, seguidos do pagamento de pensão mensal de $36 – uma quantia, diz Tashi Angmo, que “Não dura três dias.”

“Vergonha do ITBP! Eles não são bons!” disse-me ela, chorando. “Um filho não tem preço, dinheiro não é nada. Mas, nós somos a família afetada. Eu perdi meu filho. Eles deveriam honrar as promessas deles.” Embora Paljor tenha morrido como herói, a família dele recebeu insignificâncias, enquanto o corpo dele permanecerá na montanha, tornando-se um acessório mórbido na paisagem. Quando o Everest leva uma vida, ele também a prende. Afinal, ele se tornou o “Botas Verdes” – um escalador sem um nome, pelo qual pessoas passam, a cada ano, na rota para as suas glórias pessoais.

Não era, entretanto, o último capítulo na história de Paljor… décadas depois, ele iria desaparecer. Como já foi relatado, na parte investigada, é crescente o problema dos mais de 200 corpos que ainda permanecem no Everest – e as razões psicológicas pelas quais as pessoas continuam a escalar essa montanha mortal.

 

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