Extremos
 
O EDITOR ELIAS LUIZ
 
O problema com os mais de 200 corpos no Everest
texto: Elias Luiz | Rachel Nuwer
tradução: Daniela Silvestre
4 de novembro de 2015 - 15:00
 

O Everest ao fundo visto do cume do Gokyo Ri.
 
  Elias Luiz  

Dando continuidade na série especial sobre o EVEREST, hoje iremos entrar em um assunto polêmico que blogs adoram explorar, pois sempre é resultado garantido de bons cliques, sem se precouparem com a história real em si: O que fazer com os mais de 200 corpos abandonados no Everest? Sempre evitamos entrar nessa polêmica, mas a pedidos de muitos internautas que gostariam de ler algo sério a respeito, o EXTREMOS resolveu abordar o assunto, com um artigo fruto de extensa pesquisa de Rachel Nuwer e comentários do editor Elias Luiz (entre barras azuis).

Morte nas nuvens

Eles encontram-se congelados no tempo, milhares de metros acima do nível do mar. O número sombrio de mortos do Everest está se tornando impossível de ignorar.

“Mas quando digo que o nosso esporte é arriscado, não quero dizer que ao escalarmos as montanhas temos uma grande chance de morrer, mas que estamos cercados dos perigos que irão nos matar, se nós os deixarmos.”

George Mallory, 1924

Não se sabe exatamente, quantos corpos permanecem no Monte Everest atualmente, mas certamente são mais de 200. Escaladores e Sherpas permanecem enterrados em fendas, sob a neve de avalanches e expostos nas encostas – suas extremidades esbranquiçadas e distorcidas. A maioria está oculta da vista, mas alguns são familiares na rota para o cume do Everest.

Talvez o mais conhecido de todos são os remanescentes de Tsewang Paljor, um jovem alpinista indiano que perdeu a vida em uma infame nevasca em 1996. Por quase 20 anos, o corpo de Paljor - popularmente conhecido como Botas Verdes, devido ao calçado neon que usava quando morreu - tem repousado perto do cume do Everest, na Face Norte. Quando a cobertura de neve está escassa, os alpinistas têm que pular por sobre as pernas extendidas de Paljor nos seus caminhos de ida e volta do pico.

Na verdade a trilha "passava" ao lado do corpo de Paljor, pois ele "estava" em uma reentrancia na rocha, conhecida como a Caverna do Botas Verdes, então não há a necessidade de pular sobre o seu corpo. Antes de tirar qualquer conclusão, leia o artigo até o final.

 

Tsewang Paljor, um jovem alpinista indiano que perdeu a vida em uma nevasca em 1996. Ficou conhecido na internet como o Botas Verdes.
 

Montanhistas vêem tais assuntos como trágicos porém inevitáveis. Para o resto de nós, entretanto, a ideia de que um corpo possa permanecer em plena vista por quase 20 anos pode parecer incompreensível. Corpos como o de Paljor irão permanecer em seus lugares para sempre, ou algo pode ser feito? E um dia iremos constatar que o Monte Everest simplesmente não vale mais a pena? Como eu descobri nessa série de duas partes, a resposta é uma história de controle, perigo, aflição e surpresas.

Antes de responder a essas questões, no entanto, é válido perguntar algo mais fundamental: Quando a morte está por toda a parte, por que, de uma vez por todas, as pessoas jogam com suas próprias vidas no Everest?

Alcançar o ponto mais alto da terra serviu como símbolo dos “desejos dos Homens de conquistar o universo,” como o montanhista Britânico George Mallory colocou. Quando um repórter uma vez perguntou a ele por que desejava escalar os 8.848 m (29,029ft) do Everest, Mallory rebateu “porquê está lá!”

O Everest, contudo, não é mais o lugar romântico e inconquistável que era. Desde que Tensing Norgay e Edmund Hillary se tornaram os primeiros Homens à ficar em pé no cume em 1953, a montanha foi conquistada mais de 7.000 vezes por mais de 4.000 pessoas, as quais deixaram uma trilha de lixo, desperdício humano e corpos em seus rastros.

 

Em alguns casos, várias mortes em um local, por exemplo, em 2015 um terremoto matou 18. Fonte: Richard Salisbury e Elizabeth Hawley, Himalaya Data Base.
 

“Escalar o Everest parece uma grande piada hoje em dia”, diz o Capitão MS Kohli, o montanhista que em 1965 liderou a primeira expedição indiana com sucesso no cume do Monte Everest. “Absolutamente nada se assemelha aos velhos dias quando existiam aventureiros, desafios e exploração. É apenas ir fisicamente com a ajuda dos outros.”

É um desafio, mas o desafio maior seria escalá-lo e não contar a ninguém.

Para os Sherpas e outros contratados para trabalhar no Everest, a razão pela qual eles ficam retornando é por ser um trabalho altamente remunerado. Para qualquer outro, contudo, as motivações são sempre difíceis de serem explicadas, mesmo para si mesmos. Escaladores profissionais sempre insistem que “o drive” deles diferem da maioria dos clientes que pagam para escalar o Everest, um grupo que frequentemente é acusado das mais baixas motivações: Embolsam a montanha mais alta do mundo para se gabar. “Alguém uma vez disse que escalar o Everest é um desafio, mas o maior desafio, seria escalá-lo e não contar a ninguém,” afirma Billi Bierling, um jornalista sediado em Kathmandu, escalador e assistente pessoal de Elizabeth Hawley, uma ex-jornalista, aos 91, que tem sido a cronista das expedições ao Himalaia desde os anos 60.

Mas poucos na realidade admitem que escalam o Everest somente para se vangloriar mais tarde. Ao invés, o Everest tende a assumir uma importância simbólica para aqueles que o vislumbram, sempre em termos articulados de transformação, triunfo sobre obstáculos pessoais ou a joia da coroa em uma lista de metas ao longo da vida, “Cada um tem um motivo diferente,” diz Bierling, “Alguém quer espalhar as cinzas do marido falecido, alguns fazem isso por suas mães, outros querem matar um demônio pessoal.”

“Em alguns casos, é apenas ego,” acrescenta Hawley. “Na verdade você tem que ter uma certa quantidade de ego para fazer a coisa toda.”

Assim como escaladores profissionais, cujo amor por montanhismo vai bem além do Everest, psicólogos têm tentado extirpar suas motivações por décadas. Alguns concluem que atletas de grande risco – incluídos os montanhistas – são buscadores de sensações que superam a emoção. Pense ainda por um momento no que escalar o Everest acarreta – semanas passadas em vários acampamentos, permitindo que o corpo se adapte à altitude; avançando montanha acima, passo-a-passo; usando pura força de vontade para avançar com desconforto e exaustão – e essa explicação faz menos sentido. Escalada em grande altitude, de fato, é um trabalho árduo. Assim como Matthew Barlow, pesquisador com pós doutorado em psicologia do esporte na Universidade de Bangor, coloca: “Escalar algo como o Everest é chato, penoso e o tão perto quanto se pode chegar de uma descarga de adrenalina.”

Em comparação com outros atletas, montanhistas anseiam uma sensação de controle sobre suas vidas

Escalador, por si só, Barlow suspeita que a teoria da busca por sensações vem sendo há muito tempo mal aplicada aos montanhistas. Sua pesquisa sugere que, comparado à outros atletas, montanhistas tendem a possuir uma “expectativa exagerada de gerenciamento.” Em outras palavras, eles almejam um sentimento de controle sobre suas vidas. Por causa da complexidade da vida moderna que desafia esse controle, eles são forçados a buscar gerenciamento em outro lugar. Como Barlow explica: “Para demonstrar que eu tenho influência sobre a minha vida, eu devo entrar em um ambiente que é inacreditavelmente difícil de controlar – como as altas montanhas.”

Flertar com a mortalidade, em outras palavras. faz parte do apelo. “Se você pode escapar da morte ou se esquivar de um acidente fatal, isso te permite a ilusão de heroísmo, apesar de eu não achar que seja verdadeiramente heróico,” diz David Roberts, montanhista, jornalista e autor sediado em Massachusetts. “Não é como jogar poker onde o pior que pode acontecer é perder algum dinheiro. As apostas são as finais.”

 

Atingir o ponto mais alto da Terra, sempre foi o símbolo do "desejo do homem para conquistar o Universo", como disse George Mallory. (Crédito: Rex)
 

Nas décadas que passou entrevistando montanhistas, Hawley, também, tem notado essa tendência. “Em certos casos, escaladores só querem se livrar de casa e de responsabilidades,” diz ela. “Deixar a mãe tomar conta do filho doente, ou lidar com o pequeno Johnny que não vai bem na escola.”

A maioria dos escaladores que Barlow e seus colegas incluíram no estudo deles – especialmente os profissionais – também exibem algo que os psicólogos chamam de Counterfobia. Ao invés de evitar coisas que temem, se sentem compelidos a enfrentar esses elementos. “É impróprio dizer que escaladores são destemidos,” diz Barlow. “Ao contrário, como escalador, eu sei que terei medo, mas a chave é que eu me aproximo do medo e tento superá-lo.”

Como um drogado que teve a sua correção, montanhistas geralmente reportam um efeito de transferência de experiências – uma sensação de saciamento imediato depois de retornar de um pico. “Para mim, retornar de uma escalada fisicamente exausto mas mentalmente relaxado é um sonho”, diz Mark Jenkins, jornalista, autor e aventureiro em Wyoming.

Para continuar nesse estado de desejo, montanhistas então vislumbram picos cada vez mais desafiadores, rotas ou circunstâncias, e como a montanha mais alta do mundo, o Everest tem um lugar natural nessa progressão. “Você tem que levantar a aposta, que ao longo do tempo leva a uma maior, e maior tomada de riscos”, afirma Barlow. “Se o efeito de transferência nunca é o suficiente para você parar, então em última análise você provavelmente morrerá.”

Perante tudo isso, escaladores devem decidir por eles mesmos se a paixão deles vale potencialmente perder as suas vidas - e abandonar quem amam. “Na minha vontade própria, aceito risco e sofrimento, e isso não é benefício externo para a sociedade,” diz Conrad Anker, montanhista, autor e líder do time da The North Face. “Mas enquanto cada um for claro e transparente com a sua família e esposa, então eu não acho que seja moralmente incorreto.”

Se você está disposto a colocar uma bala no tambor de um revólver e colocá-lo em sua boca e puxar o gatilho, então sim, é uma boa idéia para escalar o Everest

Alguns, entretanto, irão obter seu propósito. Nascido ao nível do mar, Beck Weathers, um patoligista de Dallas que perdeu o nariz e partes de suas mãos e pés - e por muito pouco a sua vida – no Everest em 1996, foi originalmente atraído para escalar precisamente por causa de um medo paralisante de altura. Como ele descreve em seu livro, “Deixado Para Morrer”, encarar as montanhas com aquele medo provou ser um antídoto efetivo (embora temporário) para a sua depressão severa. O Everest foi a sua última experiência no montanhismo, embora, aquele triz com a morte salvou o seu casamento fazendo ele perceber o quê é verdadeiramente importante na vida. Por causa disso, ele não se arrepende. Mas ao mesmo tempo, ele não recomenda a ninguém escalar o Everest.

“Minha visão sobre isso mudou dramaticamente,” diz ele. “Se você não tem alguém que se importa com você ou que dependa de você, se você não tem amigos ou colegas, e se você deseja colocar uma única bala no tambor de um revólver e colocá-lo na boca e puxar o gatilho, então sim, é uma boa ideia escalar o Everest.”

CUIDADO, SPOILER: Na verdade o acidente no Everest em 1996 não salvou o seu casamento, o acidente apenas abriu os seus olhos para o que estava se passando. O catalizador maior para sua mudança pessoal e o que realmente salvou o seu casamento foi a morte do seu cunhado.
Recomendo que leiam o livro "Deixado para Morrer", é um dos melhores livros do Everest, que na verdade o foco maior não é a escalada.

 

Fonte: Richard Salisbury e Elizabeth Hawley, Himalaya Data Base. (Arte: Elias Luiz e Nigel Hawtin)
 

Zonas de Guerra a parte, as altas montanhas são os únicos locais da terra onde é esperado e ainda normal encontrar restos humanos. E entre todas as montanhas nas quais montanhistas perderam suas vidas, o Everest provavelmente carrega o maior risco de se deparar com corpos simplesmente porque são muitos. “Você está caminhando, em um dia lindo, e subitamente tem alguém ali, “diz o montanhista Ed Viesturs. “É como, uau – É um chamado para acordar.”

O brasileiro Manoel Morgado escalou o Everest em 2010 pela Face Sul (Nepal) e não encontrou nenhum corpo durante a escalada. Um amigo argentino quando foi fazer xixi no Campo Base, acabou encontrando uma mão muito bem conservada.

Ás vezes, o encontro é pessoal. Ang Dorjee Chhuldim Sherpa, um montanhista guia da Adventure Consultants que chegou ao cume do Everest 17 vezes, tinha bons amigos como Scott Fischer, montanhista que morreu em 1996 no desastre na Face Sul. Depois de sua morte, o corpo de Fischer permanece à vista. “Quando você está passando e vê o seu amigo deitado ali, você sabe exatamente quem é,” ele diz. “eu tento não olhar, mas meus olhos sempre vão lá.”

“As Pessoas de alguma forma são capazes de caminhar entre esses corpos e continuar escalando através da racionalização para elas mesmas de que o que aconteceu com aquela pessoa, não acontecerá consigo,” diz Chirtopher kayes, diretor e professor de administração na Universidade George Washington em Washington DC.

Alguém havia colocado uma bolsa plástica sobre o rosto do homem a fim de evitar que os pássaros bicassem seus olhos.

Alguns, entretanto, não são capazes de continuar escalando. Em 2010, Geert Van Hurck, um escalador amador da Bélgica, estava subindo a Face Norte do Everest quando se deparou com uma “massa colorida” no chão. Percebendo que se tratava de um escalador, Van Hurck se aproximou, ansioso para oferecer qualquer ajuda que pudesse. Foi quando ele viu a bolsa. Alguém havia colocado uma bolsa plástica sobre o rosto do homem a fim de evitar que os pássaros bicassem seus olhos. “Não era certo continuar escalando e comemorar o cume,” diz Van Hurck. “Eu acho que talvez eu estivesse vendo eu mesmo deitado ali.” Ele certamente quase chegaria ao cume, mas retornou ao acampamento, tremendo e chateado.

 

Imensa fila de alpinistas passando pela Franja Amarela, em direção ao C4 (8000m) do Everest, em um ano atípico com uma curta janela de ataque ao cume. (Crédito: Rex)
 

A decisão dele de retornar, entretanto é rara. Centenas de escaladores passaram por corpos na rota para o cume, frequentemente sabendo quem eles são. De fato, quase imediatamente após a morte de Paljor, incertezas têm rondado seus restos mortais. Alguns até duvidam se aquele corpo pertence mesmo a Paljor, pensando ser mais provavelmente seu parceiro de escalada, Dorje Morup. Mas por qualquer razão que seja, a identidade de Paljor foi amplamente sedimentada, mesmo que a maioria dos escaladores de hoje conheça os restos somente como Botas Verdes, e o local onde ele descansa como a Caverna das Botas.

O enclave, localizado aproximadamente a 8.500m de altitude e protegido do vento, é um local popular de descanso para os escaladores no caminho de volta do cume, que podem se sentar lá para recuperar o fôlego ou comer um lanche. “É muito macabro que tenham dado o nome dele à caverna,” diz o montanhista amador Bill Burke, a única pessoa a ter escalado a maior montanha de cada continente após os 60 anos. “Isso se tornou um ponto de referência na Face Norte.” Em 2006, a caverna – e o Botas Verdes – ganharam ainda mais reconhecimento infame quando um escalador Britânico chamado David Sharp foi descoberto amontoado ali dentro, à beira da morte. A história circulou amplamente na mídia, alegando que mais de 40 escaladores passaram por Sharp, que morreu mais tarde naquele dia, sem oferecerem ajuda. Assim como é o caso, no entanto, muito da nuance da história se perdeu nesses relatos; de fato, muitos escaladores não notaram Sharp, ou assumiram que ele estava apenas descansando. Outros acusados de ignorar o apuro dele não foram informados até que fosse muito tarde para ajudar.

Leia o primeiro artigo do ESPECIAL DO EVEREST publicado pelo EXTREMOS que explica melhor a morte de Sharp, o famoso Botas Verdes. (clique aqui)

O corpo de Sharp foi removido da vista um ano depois à pedido de seus pais, mas Paljor, cujo apelido foi mais solidificado devido ao incidente, permaneceu.

 

Alpinistas próximo ao C4 (8000m) do Everest, o último acampamento antes do ataque final ao cume. (Crédito: Rex)
 

O que fazer com os corpos na montanha depende de uma série de fatores, incluindo o desejo pela descida da família dele ou dela, e o local onde a morte aconteceu. Alguns tomam providências para que seus corpos sejam devolvidos a suas famílias, se possível. Burke não discute esses detalhes com a sua esposa. Mas ele garante que seu corpo deveria ser entregue à ela, caso o pior aconteça. “Não é algo que você debruce sobre o assunto,” diz ele, “Eu sabia que eu precisava de um seguro de repatriação então eu fiz um, mas eu não pensei muito sobre isso.”

Devolver um corpo para a família custa milhares de dólares

Devolver um corpo para a família custa milhares de dólares, e requer o esforço de seis ou oito Sherpas – colocando potencialmente a vida desses homens em perigo. “Até pegar um pacote de doces no alto das montanhas é um esforço enorme, pois está totalmente congelado e você tem que escavar em torno dele,” afirma Ang Tshering Sherpa, diretor e fundador da Asian Treking Company sediada em Kathmandu, e presidente da Associação de Montanhismo do Nepal. “Um corpo morto que normalmente pesa 80kg pode pesar 150kg quando congelado e escavado com o gelo circundante anexo.” Tipicamente, embora, montanhistas que morrem na montanha desejam permanecer nela, uma tradição incorporada dos marinheiros mais de um século atrás. “Mas quando nós temos 500 pessoas pisando por cima de um corpo a cada ano, não é mais aceitável, “diz Jenkins, que teve que navegar por quatro corpos quando esteve no Everest pela última vez. “Isso é vergonhoso.”

Quando um corpo se torna um acessório bem fotografado da montanha, as famílias são quem mais sofrem. “Um dia você está dizendo adeus no aeroporto, e no outro é ‘Oh, o papai se chama Botas Verdes e eles estão passando por ele,’” diz Greg Child, montanhista e autor de Utah.

O irmão de Paljor, Thinley, relembra o momento em que descobriu o apelido, junto com as fotos, em 2011: “Eu estava na internet, e descobri que eles o chamavam de Botas Verdes ou algo assim,” ele diz. “Eu fiquei muito triste e chocado, e não queria que a minha família soubesse disso. Honestamente falando, é muito difícil para mim até mesmo olhar as fotos na internet,” ele diz. “Me sinto tão desamparado.”

Direitos de Funeral

A fim de evitar isto, restos humanos são geralmente encarregados à montanha – Ou seja, eles são respeitosamente empurrados para dentro de uma fenda ou empurrados para fora de uma encosta íngreme, fora de vista. Quando possível, eles também são cobertos com pedras, formando um montículo de enterro. Mas Dave Hahn, montanhista, guia da RMI Expeditions que alcançou o topo de Everest 15 vezes, enfatiza “A hora de mover um corpo é quando o acidente acontece.” Além do mais, “Não sendo grotesco, eles se aderem à montanha.”

 

Sherpa fazendo a limpeza das encostas do Everest. (Crédito: Getty Images)
 

Mas mesmo para um corpo fresco, esse ato de respeito pode levar horas e requer o esforço de vários escaladores aptos. A questão que permanece é sobre quem cai a responsabilidade de tal tarefa, especialmente a medida que mais corpos se acumulam ao longo dos anos, e o derretimento glacial devido às mudanças climáticas causa o aparecimento de outros.

Alguns têm intensificado. Desde 2008, Dawa Steven Sherpa, diretor administrativo da Asian Trekking e filho de Ang Tshering, e seus colegas têm liderado os trabalhos de uma limpeza anual na montanha, removendo mais de 15.000 kg de lixo velho e mais de 800 kg de dejetos humanos. Como tal, sempre que um corpo ou parte dele emerge do degelo, do sempre dinâmico glaciar do Khumbu, seu time é visto como a equipe de remoção de fato. Até agora, eles respeitosamente eliminaram vários corpos, quatro Sherpas e um escalador Australiano que desapareceu em 1975. “Se possível, restos humanos deviam ser enterrados”, diz Dawa Steven. “Não é sempre possível quando um corpo está congelado em uma encosta à 8000m, mas pelo menos podemos cobri-lo e dar alguma dignidade para que as pessoas não tirem fotos.”

O fim de uma Mãe

Uma história em particular da recuperação de um corpo ilustra tanto o custo humano, como às delongas para mostrar o apropriado respeito à morte.

Francys Distefano-Arsentiev morreu no Everest em 1998, e ficou conhecida como “A Bela Adormecida”. Seu filho, Paul Distefano relembra o quanto aflitivo foi ver as fotos do corpo de sua mãe online. “É muito constrangedor, é como ter sido chamado pela professora e não saber ler. É horrível.”

 

Na década de 1970, escalar o Everest era menos comercializado do que é hoje (Crédito: Rex)
 

Quando ele tinha 11 anos de idade, a mãe de Paul, uma escaladora de classe mundial, tinha se tornado a primeira mulher Americana a escalar o Everest sem oxigênio. “Eu não sei porque ela decidiu fazer aquilo sem usar oxigênio, mas eu penso que ela sentia que precisava provar algo,” diz Paul. “Penso que ela também se sentia invencível porque ela estava com Sergei, meu padrasto. O apelido dele era Leopardo das Neves, pois era muito ágil.”

Francys atingiu seu objetivo e fez história no Everest. Mas na descida do cume, algo deu errado

Um dia antes de partir, Francys apareceu na escola de Paul em Telluride, Colorado, e disse a ele: “Eu vou deixar a seu critério.” Em um dos momentos mais vívidos que ele tem, ele se lembra de ter dito a ela, “Se eu te disser que você não pode ir, então em algum momento você será uma velha em uma cadeira de rodas dizendo, ‘Poxa, eu deveria ter feito aquilo.’ Eu não quero ser aquele a tirar isso de você.”

Naquela noite, entretanto, Paul teve um pesadelo: dois montanhistas, em uma completa névoa, com neve os circundando como um ataque de abelhas. Quando ele acordou, telefonou para a mãe, dizendo que ele tinha mudado de ideia. “Você sabe Paul,” Ela respondeu, “Nós conversamos ontem, e você estava certo: Eu tenho que fazer isso.”

“Eu não acho que a ciência possa realmente explicar porque as pessoas querem escalar essas montanhas”, ele diz. “No final, toda a razão pela qual minha mãe escalou foi porque ela queria.”

Em 22 de maio de 1998, Francys atingiu seu objetivo e fez história no Everest. Mas na descida do cume, algo deu errado. Ela e Sergei foram forçados a passar a noite na zona da morte e ficaram separados. Na manhã seguinte, Sergei sofreu uma queda fatal tentando resgatar Francys, que tinha colapsado por volta de 8.550m de altitude. Os escaladores Ian Woodall e Cath O´Dowd chegaram até Francis às 5h00 e desistiram do cume, ficando com ela por uma hora em temperaturas abaixo de zero antes de serem forçados a descer para a segurança do Campo 4. Algum tempo depois naquela manhã, Francis sucumbiu ao congelamento e à exaustão.

Quando o pai de Paul o sentou em uma tarde ensolarada e lhe deu a notícia, Paul sentiu como se tivesse sido atingido por uma marreta. Mesmo assim ele não pareceu surpreso. “Para ser sincero, eu já sabia,” ele disse. “Quando alguém muito próximo a você morre, é estranho e inexplicável, mas você apenas sabe.” Atualmente, Paul não guarda ressentimentos em relação a sua mãe. “Eu a amo e desejava que ela fizesse parte da minha vida, mas ela não está,” diz ele. “A morte dela é certamente algo que eu sempre vou ter que lidar, apesar de certa forma ser uma benção a minha mãe morrer fazendo aquilo que amava.”

 

Há 10 anos o EXTREMOS realiza a maior Cobertura Online do Everest, com infográficos, vídeos, podcast e artigos.
 

Anos se passaram, e Francys permanece na montanha. Mas Woodall, que ficou com ela nas horas finais, se tornou assombrado por essa incapacidade de salvá-la e profundamente chateado com o fato de seu corpo ter se tornado um ponto de referência.

Em 2007, Woodall, com a ajuda de O´Dowd, retornou ao Everest especificamente para remover o corpo de Francis de vista. “Era uma oportunidade de dizer adeus,” diz ele. “Mas mais importante, tirar ela de vista.”

Woodall e Phuri Sherpa, que geralmente trabalha no Everest mas que se voluntariou para ajudar, caminharam até o local onde ele lembrou ter deixado Francys – uma encosta íngreme, definida por um ângulo de 60 graus e coberta por xisto quebrado. O plano original era criar uma lápide de pedras para ela, mas para o desânimo de Woodall, ele encontrou a área enterrada por um metro de neve. “Não havia sinal algum dela, somente uma grande e instável encosta de neve,” diz ele.

Foi a coisa mais difícil que já fiz, mais difícil que chegar ao cume

Os dois começaram a cavar. Graças a um misto de sorte e lembranças, eles encontraram Francys na segunda tentativa. Um túmulo de pedras não era mais uma opção, mas eles tinham corda o suficiente para abaixar o corpo dela ao longo da borda da montanha. Após envolverem seus restos mortais rígidos com a bandeira Americana e dizerem algumas palavras, eles a mandaram para o seu caminho – aparentemente para o mesmo lugar onde Sergei está. Tudo dito, eles levaram cinco horas. “Foi a coisa mais difícil que já fiz, mais difícil que chegar ao cume,” Woodall diz. “Mas me senti forte o bastante para levantar o meu traseiro e fazer algo a respeito.”

Paul, entretanto, só soube disso através da mídia, e primeiramente se sentiu um pouco ressentido por não ter sido informado. “Era como se, ‘Cara, Essa é a minha mãe!’”Afinal, embora ele percebesse que Woodall e O’Dowd tendo testemunhado os momentos finais da vida da mãe dele, forjaram suas próprias conexões especiais com Francys. “Minha mãe e eu somos ligados por sangue, e Ian, Cathy e ela são ligados pela morte,” diz ele. “Eu sinto que eles têm tanto direito quanto nós de remover o corpo dela, e a minha família honra o esforço deles.”

“Eu gostaria que eles tivessem me perguntado, mais que isso, eu gostaria de estabelecer uma conexão com eles e conhecê-los,” continua. “Espero que esse dia chegue.”

 

A região de Ladakh, onde Tsewang Paljor originado. Foto: Rachel Nuwer
 

Depois de ler sobre os esforços de Woodall para remover o corpo de Francys, Thinley o contactou sobre a possibilidade de fazer o mesmo por seu irmão Paljor. “O que eu acho muito estranho é que Paljor estava com uma grande equipe polícial de fronteira em 1996, mas eles simplesmente empacotaram tudo e foram para casa deixando-o lá,” diz Woodall. “E além disso, posteriormente, a polícia de fronteira Indiana fez outras expedições ao Everest, chegando ao cume, e ainda o deixaram lá.”

O ITBP, entretanto, afirma que o corpo de Paljor está irremediavelmente preso, e sendo assim, eles não podem garantir que seja mesmo de Paljor – ou mesmo de um Indiano. “Alguns dizem que é um corpo da ITBP, outros dizem que é Indiano e há quem diga que é estrangeiro,” diz Deepak Pandey, relações públicas do escritório do ITBP em Delhi. “Nossa equipe o viu, mas não fomos capazes de confirmar se o corpo é nosso ou não.”

Aceitando que não iria ter ajuda do ITBP, Thinley ofereceu pagar a missão de Woodall para mover Paljor, mas subestimou o quanto custa uma viagem como essa – por volta de 70.000 dólares. Woodall, por outro lado, tinha extinguido suas próprias economias no trabalho para mover Francys. “Se eu tivesse a chance de voltar atrás, Paljor seria a minha prioridade,” ele diz. “Mas eu realmente não posso fazer isso novamente por conta própria.”

“Eu apenas rezo para que minha mãe nunca saiba sobre essa história de Botas Verdes,” diz Thinley. “Ela iria ficar muito, muito, muito chateada. Não consigo nem imaginar.”

Thinley tinha tudo, menos perder as esperanças em colocar os restos de seu irmão para descansar. Mas no ano passado, sem aviso, Paljor desapareceu.

 

Tendas brilhantes marcar a presença humana no Campo base, no que antes era um deserto. Foto: Giles Price / The New York Times
 

O aventureiro Noel Hanna fez esta descoberta em Maio de 2014, quando ele se surpreendeu não somente pela caverna do Botas Verdes estar desprovida do seu residente mais familiar, mas também pela maioria dos corpos do lado norte – um trecho por vezes chamado como “crista do arco-íris”, devido aos trajes coloridos de muitos dos escaladores ali caídos – terem desaparecidos. Hanna estima que, antigamente, aproximadamente 10 corpos eram visíveis na rota para o cume, mas em 2014 ele contou apenas dois ou três. “Eu diria ter 95% de certeza que Paljor foi movido ou coberto por pedras, “ Afirma Hanna.

No que diz respeito às tradições do Everest, entretanto, as circunstâncias envolvendo a remoção dos restos não está totalmente clara. Hanna suspeita que deve ter sido a Associação de Montanhistas Chinesa Tibetana e a Associação Chinesa de Montanhismo, que administram o lado norte. Cinco semanas antes de empreender a escalada, ele sugeriu aos oficiais em um jantar que eles deveriam remover os corpos. “Aparentemente ninguém apontou a pessoa no cargo anteriormente,” diz ele.

Eu perguntei a Li Guowei, o deputado diretor de divisas do departamento da Associação de Montanhismo da China, por mais detalhes. Ele disse que estava ansioso em prover respostas às perguntas sobre os esforços, mas que qualquer comunicação na mídia deveria ser feita através de canais oficiais. Depois de mais de um mês tentando, entretanto, ele admitiu que ele não achava que o pedido devesse receber aprovação dos oficiais do Tibet em momento algum em um futuro próximo.

“A abordagem deles é muito Chinesa,” Diz Dawa Ateven, que frequentemente trabalha com eles. “Eles não dizem o que estão fazendo e não querem propaganda.” Os Chineses também não querem equipes privadas conduzindo suas próprias limpezas, ele diz. “Na minha visão, parece que é uma questão de orgulho nacional.” Os parentes, no entanto, não parecem ter sido informados, já que essa notícia chegou como surpresa a Thinley. Quando eu contei a ele o que eu tinha ouvido, ele parou por um momento. “Isso é um alívio,” ele disse finalmente. “Obrigado por ter me contado.”

 

Infográfico criado pelo EXTREMOS explicando como aconteceu a maior tragédia do Everest com 19 mortes, em 2015.
 

Retorno à montanha

Em meio à todas as mortes, à poluição, à superlotação e ao crescente mérito questionável de alcançar o cume, as pessoas irão decidir que a montanha simplesmente não vale mais a pena? Não é provável, se o passado é algo para ser ir em frente.

Assim como a tragédia de 1996 não fez nada para reprimir o interesse das pessoas no Everest, o vai e vem dos horrores dos últimos dois anos parece ter tido pouco impacto. Após a avalanche de 2014, muitos Sherpas juraram não retornar à montanha até que condições de trabalho – incluindo políticas de seguro de vida – fossem melhoradas. Para a maioria, seja por necessidade econômica ou escolha, o sentimento de ficar longe da montanha durou pouco.

Ang Dorjee, por exemplo, optou ficar fora da temporada de 2015 após perder três amigos de longa data na avalanche, mas agora ele planeja retornar em 2016. “Eu estava muito assustado, então eu pulei a temporada,” ele diz. “Mas o tempo passa, e eu tenho feito isso durante toda a minha vida.”

“Ninguém está bem com o que aconteceu,” acrescenta Dawa Steven. “Os últimos anos têm sido muito traumáticos para muitos Sherpas.” Mas dos 63 Sherpas que ele tem na folha de pagamento, nenhum apresentou sua demissão. “Ninguém disse ‘Eu não quero escalar nunca mais,’ apesar de alguns terem sido pressionados por suas esposas e seus pais para parar,” diz ele.

 

Local aproximado onde fica a caverna em que o Botas Verdes se abrigou e morreu na tragédia de 1996.
 

Mas os últimos dois anos trouxeram uma perda tão grande de vidas que se tornou difícil para mim continuar a usar esse argumento

A mesma dinâmica está acontecendo nas companhias de guias e lideres do oeste. Hahn sempre defendeu o Everest, mas agora está considerando uma ruptura com a montanha. “Eu costumava ver as histórias da mídia que surgiam e elas eram somente sobre morte e destruição, e eu disse, ‘Bem, a minha montanha não é sobre morte,” diz ele. “Mas os últimos dois anos trouxeram uma perda tão grande de vidas que se tornou difícil para mim continuar a usar esse argumento.”

O Everest ainda tem uma maneira de atrair as pessoas de volta. Sete anos atrás, a Mountain Madness, uma companhia sediada em Seattle, suspendeu suas escaladas guiadas no Everest por um período indeterminado, citando a superlotação e o superávit de montanhistas inexperientes. “Nós estamos tentando decidir se nós queremos tomar uma posição e dizer ‘Hey, olhe, nós não apoiamos o que está acontecendo no Everest,” diz Mark Gunlogson, o presidente da companhia. No próximo ano, entretanto, a Mountain Madness planeja retornar. “Tem mais a ver com a demanda de clientes do que com a nossa tentativa de voltar ao jogo,” diz Gunlogson.

 

A tragédia de 2014 que matou 16 Sherpas na Cascata de Gelo do Khumbu, mostrada no infográfico do EXTREMOS.
 

“O Everest não perdeu sua mística para mim, ou para muitos outros que irão voltar ano após ano,” diz Burke. “Mesmo tendo estado lá seis vezes, eu amo escalar aquela montanha. Eu amo ir para lá. Eu sou quase um viciado.”

Para os próximos anos – talvez para sempre – o Everest irá sem dúvida continuar a fazer o que tem feito por décadas: capturar a imaginação, prover o pano de fundo para sonhos e triunfos pessoais, e tomar algumas vidas no processo. O Botas Verdes ao menos descansou, mas não há garantia que a sua caverna permanecerá vazia por muito tempo.

O Everest se mostra de verdade quando se passa dos 8.000m, a chamada Zona da Morte, ou então na travessia da Cascata de Gelo na Face Sul. Pelas nossas estatísticas, a cada ano morrem pelo menos 6 alpinistas/sherpas. Não é fácil você encarar uma escalada dessa ou mesmo uma cobertura como essa sabendo que durante os 60 dias de expedição e das aproximadamente 900 pessoas envolvidas, 6 não voltarão para casa vivos. Mas sendo a maior montanha da Terra, não importa o que aconteça com o Everest, ano após anos a procura será cada vez maior, e nós do EXTREMOS estaremos aqui, ano após anos realizando a Cobertura Online, como fazemos há 11 anos.

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