Escalar a mesma montanha?
da redação, Carlos Santalena
4 de setembro de 2011 - 8:08
 
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PEQUENO ALPAMAYO - Grupo no cume do Pequeno Alpamayo - 5400m
 

Bolivia, sempre um prato cheio e bastante recomendado para montanhistas sul-americanos que pretendem iniciar suas aventuras em alta montanha ou até mesmo para os montanhistas mais experientes que buscam rotas mais técnicas e desafiadoras. Um país belíssimo onde podemos contemplar desde a grande floresta Amazônica até os altos picos nevados acima dos 6000m que se destacam no horizonte de La Paz.

 
O pequeno Alpamayo, 5400m.
   
 
Carlos Henrique, o véio, no cume do Tarija 5200m  
   
 
Amanhecer no Huayna Potosi  
   
 
Campo base do Condoriri - 4650m  
   
 
Grupo iniciando a escalada do Huayna Potosi - 6088m  
   

Estar em La Paz é como estar em um grande buraco rodeado por casas inacabadas por conta dos impostos, já que o governo só cobra o imposto completo depois que os proprietários concluírem as fachadas. Desde a cidade subimos as encostas rochosas erodidas deste grande vale avistando o Illimani, o Huayna Potosi (6088m) e o incrível Chacaltaya que era a pista de ski mais alta do Planeta que hoje devido ao grande aquecimento global na região virou ponto de turista avistar as montanhas e tirar algumas fotos da paisagem.

As montanhas bolivianas devido ao fluxo grande de pessoas e principalmente pelo aquecimento global estão ficando com seus glaciares reduzidos e mudanças de rotas são constantes especialmente em montanhas menos freqüentadas.

L a Paz está a aproximadamente 3900m de altitude e chegar lá já é uma tarefa dura, pois somos obrigados a nos aclimatar com uma rapidez maior. Nestes últimos anos surgiu um grande questionamento entre meus amigos que seguem a mesma profissão de guia, o questionamento surgiu através da pergunta que nos foi feita : Vocês não cansam de subir a mesma montanha todas as temporadas? Ao receber este questionamento um tanto quanto maluco já pensei logo: Para começar a montanha nunca é exatamente a mesma, pois o clima muda constantemente assim como todo o movimento de nosso planeta, então é claro que nunca escalamos a mesma montanha! Com esta estória recordei muito meu sobrinho que quando era pequeno dizia que a montanha não era viva, pois não se movia... Agora depois de alguns anos tenho certeza que ele consegue entender a vida que há nas rochas, no gelo e em qualquer formação natural, mesmo que visualmente pareça estática.

Hoje o que mais faz diferença em uma expedição como as que guio, são as pessoas que há compõe. Mais do que um desafio pessoal, agora quando retorno as montanhas como na Bolívia que já estive por 5 vezes, com um desafio maior e coletivo onde o maior prazer esta em ajudar as pessoas a descobrirem seus limites respeitando-os, seja chegando ao cume ou não.

Chegar no cume como o objetivo pessoal penso ser um tanto egoísta e o que me encanta mesmo é ver como a prática do montanhismo e da escalada pode alterar a visão de mundo do ser humano. Sem exceção, todos voltam com outra mentalidade já que a experiências vividas são muito intensas e cheias de valor emocional e espiritual.

Experiências como estas nos fazem dar um valor enorme a coisas pequenas da vida como nossa cama, nosso vaso sanitário, uma água mineral e também as grandes como as pessoas que amamos estarem sempre ao nosso lado.

Neste ano de 2011, estivemos mais uma vez no Pequeno Alpamayo (5400m) para um curso de escalada em gelo e no Huayna Potosi (6088m) que também é conhecido por sua acessibilidade e rota normal não técnica.

Como de costume passamos uma semana inteira na região do Condoriri aprendendo técnicas diversas e se divertindo nos glaciares e cascatas de gelo da região que particularmente têm uma paisagem lunar impressionante um grande campo escola para os iniciantes em alta montanha .

No ataque ao Cume do Pequeno Alpamayo (nosso batismo), dos 9 participantes que tínhamos, chegamos em 7 pessoas no cume e tivemos um grande dia com direito a muitas emoções e uma grande bandeira do Brasil, havendo apenas duas desistências neste dia. No Huayna Potosi acabei levando um grupo mais reduzido de 5 pessoas e mesmo assim 3 deles puderam conquistar o topo, e chegar em seus próprios cumes pessoais.

Muitos me perguntam também se estes cumes são um indicador de sucesso de nossas expedições, nós preferimos acreditar que o grande indicador de sucesso das expedições é a alegria e felicidade de cada um que hoje comprovadamente não depende de um cume.

O que podemos dizer também é que é muito legal chegar ao topo, mas quem já desistiu alguma vez sabe que a desistência traz muito mais conhecimento e consciência para atingirmos o sucesso que nada mais é do que ser feliz.