AMAN MORBECK
A quase 1.900 metros de altitude, uma das pousadas mais alta do Brasil
foi construída em área privilegiada da Serra da Mantiqueira
 
 
Publicado em 28/05/2008 - 15h36 - Aman Morbeck
 
 
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  Foto: Divulgação
 
Mar de montanhas de Minas com pico do Papagaio a direita.
Foto: Aman Morbeck
   
 




 
Foto 1 - Fonte de água mineral ao lado da sede octagonal
Foto 2 - Sede octagonal com o vale coberto por nuvens ao fundo.
Foto 3 - Vista do interior de um dos quartos da sede octagonal
Foto 4 - Delícias do café da manhã colocadas no fogão a lenha
Fotos: Aman Morbeck
   
  Foto: Divulgação
 
Montanhas de Minas encobertas pelas nuvens.
Foto: Aman Morbeck

Oito da noite. O Toyota Bandeirante 4x4 azul começou a subir a estrada de terra barrenta, encharcada pela chuva que caiu incessantemente o dia todo e até aquele momento, e o motorista e proprietário da pousada Do Lado do Lá, Guilherme Figueiredo Quadros, pediu para que segurássemos firmes e não deixássemos a cabeça bater. Eu havia tentado subir mais cedo com meu Daihatsu Feroza, mas não consegui vencer uma subida longa e escorregadia e ele ficou estacionado na cidade. Ao chegarmos no mesmo ponto que me obrigou a dar meia-volta, o Bandeirante começou a escorregar também. Com a experiência de quem sobe e desce aquele caminho sob chuva ou sol há seis anos, além de ter pneus mais apropriados em seu 4x4, Guilherme pisou fundo no acelerador. O cheiro de diesel tomou conta da cabine e depois de uns dez minutos entre escorregões e avanços milimétricos, finalmente os pneus conseguiram aderir e subimos vagarosamente até deixarmos o lamaçal para trás.
Pelos próximos quilômetros, 13 desde a saída do asfalto até a porta da pousada, o terreno molhado e a chuva tornariam nossa subida lenta, exigindo muito do carro. Pouco depois, entramos no que parecia nevoeiro, mas era nuvem mesmo. Estávamos nos aproximando dos quase 1.900 metros de altitude onde a pousada foi construída em plena Serra da Mantiqueira.
Havíamos deixado a cidade de São Paulo com chuva e dirigimos os 370 km até Aiuruoca, sul de Minas Gerais, sem um metro de trégua e a previsão do tempo era de que ela continuaria a cair pelos próximos dias, trazendo frio também, mas resolvemos encarar assim mesmo.
O frio, o cansaço e os sacolejos daquele dia seriam recompensados depois que chegamos. Na sala de jantar, colocados no fogão a lenha com a lenha crepitando e espalhando seu calor por todo o ambiente, estavam cumbucas, talheres e um caldeirão de sopa fumegante. Vários hóspedes estavam ao lado do fogão ou na sala de estar, onde outros jogavam baralho. Cumprimentamos a todos enquanto acompanhávamos Rafael de Souza Gonçalves, que nos ajudava com as mochilas. Sem luz elétrica, todo o ambiente era iluminado pela luz de inúmeras velas acesas e um lampião a gás. Aconchegante e romântico, pensei.
Nosso quarto nos esperava, arrumadinho. A vontade foi de ficar por ali mesmo, mas isso só aconteceu depois de um demorado banho quente e algumas cumbucas de deliciosa sopa com pão caseiro, ambos preparados pela cozinheira-poeta Anael Alvarenga Rezende.
As mãos dessa mineira cujo sotaque não nega sua origem, não são abençoadas apenas para fazer quitutes, pães, guloseimas e os almoços e jantares da pousada, mas também para escrever, com profundidade, estilo e beleza, o que lhe vai no coração. Em uma das noites, depois de ser "delatada" por uma das hóspedes, ela nos leu algumas de suas poesias, emocionando a todos.
Ficamos dentro das nuvens por dois dias, com vento forte, frio e a chuva que caiu algumas vezes. Não era possível ver muito longe porque estava tudo cercado pela névoa branca e úmida. Sabíamos que a paisagem ao redor era incrível, com o mar de montanhas mineiras a perder de vista ali do platô, porque vimos fotos, mas não vimos muito longe dessa vez. As trilhas e cachoeiras ao redor também ficaram para outra visita. A única que vimos lá em cima foi a que fica do lado da pousada e que também é vista do quarto que ficamos, embalando quem dorme ali.
Livros, boa companhia, bons papos e cochilos são mais que bem-vindos em dias chuvosos e frios, por isso parte dos dias que ficamos lá foram gastos assim, além de uma partida de buraco que perdi com minha parceira, mas que rendeu boas risadas e conversa agradável.
Na sede octagonal, onde ficam três quartos de casal no andar superior, cozinha, salas de jantar e estar e varanda no térreo, todos se encontram para o café da manhã e refeições, o que facilita a interação com outros hóspedes. Ao redor dela, há dois chalés e duas suítes.
No domingo, dia de voltarmos para casa, acordamos às 6h30 com o sol batendo forte na janela. Como por encanto, estava tudo limpo, com céu azul; as nuvens haviam descido e estavam paradas alguns metros abaixo da pousada. Animada, peguei a câmera e desci para fotografar. A luz dourada nesse horário é espetacular e foi muito bom ver tudo limpo. Mais tarde, depois do delicioso café da manhã com pães e doces caseiros, além do queijo mineiro – que pode ser derretido na chapa de pedra aquecida pela lenha do fogão – ou dos ovos caipiras – que também podem ser fritos na chapa, preparamos nossas mochilas e resolvemos aproveitar o dia caminhando os 13 km que nos levariam de volta a Aiuruoca. Nossos pertences desceriam no Bandeirante com Guilherme e sua esposa, Roberta Luciane dos Santos.
Foi uma decisão muito feliz. Nas cinco horas que caminhamos montanha abaixo, vimos e fotografamos paisagens incríveis, como quando as nuvens ainda não haviam se dissipado abaixo do nível em que nos encontrávamos e pareciam algodão, além de avistarmos o famoso "mar de montanhas" de Minas. Depois de uns quilômetros abaixo, começamos a acompanhar os paredões da Serra do Papagaio, até virmos seu pico. Por trilha, caminha-se da pousada Do Lado de Lá até ele.
Saímos da estrada por alguns minutos para conhecermos a cachoeira dos Garcia, com seu poço grande para boas braçadas e onde a água cristalina torna-se esverdeada. Dele, a água desce por um cânion cercado por vegetação baixa em direção ao vale.
Como se tivéssemos programado, já no asfalto, bem perto do ponto onde o jipe estava estacionado, Guilherme e Roberta passaram por nós, buzinando. Acomodamos as mochilas no Feroza e aceitamos a sugestão dos dois: fomos almoçar no Kiko & Kika Restô, um restaurante pequeno e aconchegante, com cozinha de primeira qualidade, no km 1,8 da estrada Aiuruoca/Alagoa. Seu carro-chefe são os diversos pratos feitos com truta, mas há outras opções tão deliciosas quanto, como massas e saladas. Fechamos com chave de ouro o fim de semana prolongado antes de pegarmos o asfalto de volta para casa.
Voltei para a Paulicéia pensando no retorno para a pousada para ter a chance de caminhar por suas trilhas e fotografar o céu noturno dali, que deve ser incrível nas noites limpas e frias de inverno (que está chegando). Diz o Guilherme que dá até para ver discos voadores.... Bem, mas isso é assunto para outra matéria.

Dicas:
Em dias sem chuva, aproximadamente 10 dos 13 km de terra do asfalto até a pousada podem ser feitos em carros sem tração nas quatro rodas. A partir do estacionamento, a pousada oferece traslado, que também pode ser feito de Aiuruoca. Para veículos 4x4 a história é diferente. Para essa e outras informações, visite o site www.doladodela.com.br.