AMAN MORBECK
37 km de mountain bike, sem dificuldade técnica, em estrada de terra cercada por belezas naturais
 
 
Publicado em 28/01/2008 - 14h32 - Aman Morbeck
 
 
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Caía uma chuva fina e fria no Tobogã
Foto: Aman Morbeck
   
 
 
Igreja do Bairro do Roque.
Foto: Aman Morbeck
   

Pedalar é a atividade física que mais gosto. Faço isso desde o começo da década de 1990, com preferência pelo mountain bike. Já tive algumas Trek e atualmente pedalo uma Gary Fisher – Tassajara azul e prata – por quem me apaixonei perdidamente há quase dois anos. Aqui em São Paulo, tenho dois amigos com quem costumo sair para subir e descer morros, e foi com um deles, Mario Koga, que fui pedalar esse fim de semana. Escolhemos o roteiro de Salesópolis no Guia de Trilhas enCICLOpédia volume 6, do Gui Cavallari (www.kalapalo.com.br).
Essa pequena cidade paulista fica a 121 km da capital. Lá chegando, estacionamos no ponto inicial do pedal, ao lado da igreja matriz São José, descemos as bikes do carro e quando fui encostar a minha na guia, os raios bateram com força nela, mas nem percebi que havia causado um estrago. Quando fomos começar o pedal, a roda traseira estava torta e travada – um raio havia se soltado. Tentamos encaixá-lo e, com a chave de raio, ajustá-lo, mas não deu. Felizmente a bicicletaria local estava aberta e, depois de alguns minutos esperando, o simpático Benedito Moraes, um dos irmãos proprietários da Bicicletaria Moraes (Rua 15 de Novembro, 706 – Centro), encaixou a roda de volta, fez os ajustes necessários e finalmente começamos nosso passeio.
A meteorologia previa chuva, mas resolvemos encarar assim mesmo. O tempo estava fechado, mas pra que servem capas de chuva, afinal? O roteiro é todo por estrada de terra batida por onde, nos primeiros 20 km, vez ou outra encontramos algum automóvel e dois caminhões carregados de troncos de eucalipto.
A paisagem varia de morros de pedras, vegetação nativa, reflorestamento com eucaliptos e, a parte mais bonita, a vista da represa que acompanha a maior parte do pedal. Em vários pontos dá para descer da bike e nadar. Esse não foi o nosso caso, pois exatamente quando o acesso à água tornou-se possível, começou a cair uma chuva fina e fria que nos acompanhou por uns 18 km. No começo, parecia que a capa de chuva não seria necessária, mas não foi bem assim, porque depois de um tempo a temperatura do corpo não conseguiu compensar o frio externo. O relevo não é muito acidentado e há muitas descidas.
Depois de muita insistência de alguns amigos, resolvi trocar os pedais da bike para usar os famosos taquinhos. Eu os havia experimentado uma vez antes, mas levei tantos tombos que traumatizei e mandei tirá-los – havia encaixe dos dois lados. Dessa vez, por prevenção, coloquei uns que têm encaixe para a sapatilha de um lado e é plataforma do outro. Decisão acertadíssima. Foi meu debut nesse passeio. Utilizei o taquinho principalmente nas subidas e percebi realmente como melhora o rendimento. Quando achava que teria de tirar o pé do pedal com rapidez, como quando ainda pedalávamos na cidade ou ao vir um cachorro na estrada, soltava a sapatilha e seguia pedalando na plataforma. Perfeito! Não caí uma única vez e pedalei com muito mais eficiência.
Em dia de sol, esse roteiro de Salesópolis não oferece muita sombra. Ao redor da represa, vimos várias barracas com pessoas acampadas. Também vimos muitos pescadores, principalmente no Aterrado, o que dá uma bela vista do alto na altura do km 32,5 (de acordo com a planilha do Guia de Trilhas). Nesse ponto, fizeram um aterro para travessia de automóveis, dividindo a água da represa. Também atravessamos nesse ponto para os últimos 4 km do pedal. Conselho de amiga biker: guarde energia para esse final, pois é só subida até Salesópolis. Quando chegamos à cidade, descemos uma rua asfaltada para, logo em seguida, começarmos a subir de novo até chegar de volta à igreja matriz. Esses 4 km foram a parte mais puxada. Neles também há maior tráfego de veículos. No final, pedalamos por 3h, mas com as paradas para fotos e para curtir a vista em alguns pontos, fizemos o roteiro em 4h25min.
Chegamos pregados à praça. Recuperamos o fôlego e fomos procurar uma padoca. Há uma pequena na praça da matriz, mas optamos pela padaria São José (R. 15 de Novembro esquina com R. Luiz Senadoro Pagano), onde comemos um sanduíche com suco antes de seguirmos, de carro, para o Senzala, restaurante localizado a 5 km da cidade. O que há de interessante nesse local é o casarão de adobe construído por escravos há pelo menos 230 anos. De acordo com o proprietário atual, sua família é proprietária desse local há 150 anos. O restaurante funciona aos domingos na parte de trás do casarão, que fica aberto apenas para visitação e compra de artesanatos. Há alguns objetos antigos em exposição, como uma corrente com coleira para prender os escravos e um engenho de madeira feito à mão.
Mais 5 km à frente encontra-se o Parque Nascente do Rio Tietê. É isso mesmo: o local onde nasce o famoso rio que, com sua água morta por conta da poluição, atravessa a cidade de São Paulo. O Tietê tem uma característica incomum: ele não corre para o mar, mas para o continente. Não conseguimos visitar o parque, porém, por conta da hora. Ficou para a próxima vez que formos pedalar em Salesópolis, pois queremos voltar lá com um dia ensolarado e de céu azul para curtirmos a represa.
Esse é um ótimo roteiro que recomendo mesmo para iniciantes, pois não há dificuldade técnica alguma, há belezas naturais que tornam o pedal mais agradável e se os últimos 4 km forem muito difíceis para ser feitos pedalando, não há nenhum problema em se utilizar do, às vezes bem-vindo, empurra-bike. Afinal, a essa altura você já terá deixado para trás 33 km com as forças de seus músculos.

 
Abaixo: Ponte no Aterrado. Foto: Aman Morbeck