Extremos
 
7 CUMES SABRINA PASCHOAL
 
Sozinha no McKinley
 
Texto e fotos: Sabrina Paschoal
5 de julho de 2015 - 16:55
 
Sabrina Paschoal durante a escalada ao McKinley, no Alasca.
 
  Tom Alves  

O que dizer da montanha mais dura e mais linda que meus pés já pisaram? Tudo por lá é superlativo: a beleza, a neve, o clima, as dificuldades...

É uma jornada para dentro de si mesmo, nos recônditos do estado mais frio dos EUA, quando nos vemos cercados de uma vastidão enorme, em cenários que parecem saídos de sonhos e da prancheta de um colorista que não cansa de usar sua paleta para impressionar cada olhar extasiado.

Acho que a montanha usa essa beleza ímpar para mascarar as dificuldades que vamos enfrentar ou para nos fazer cientes que o caminho pode ser árduo, mas que vamos nos encantar a cada passo quando nos percebermos personagens de paisagens tão maravilhosas, tão inesperadas e insanamente perfeitas.

Em poucos dias vivemos tudo em uma sucessão de sentimentos fortes e extremos. Passamos por neve fofa, gelo duro, madrugadas muito frias, ventos intermitentes noite afora, muitos centímetros de neve acumulada, um calor quase tropical, sol forte, claridade eterna. Usamos crampon, raquete, bota tripla ou dupla, escorregamos descendo, sofremos subindo, resfolegamos nas encostas tentando recuperar o fôlego com tanto peso e parafernália que nos compunha o corpo. Carregamos comida, banheiro, roupas, mochila, trenó, sonhos e esperanças.

Cada tombo me fazia lembrar quem estava no comando e quem tinha as rédeas dos nossos desejos. Cada novo dia, que era uma continuidade do anterior e sua luz eternamente acesa, me nutria a alma com a força necessária para levantar e enfrentar aquele mundo branco que se descortinava frente à nossa barraca.

O McKinley ou Denali veio como uma lição, como aprendizado ou quebra de paradigmas para mostrar que nem sempre tudo funciona como esperamos, que saber lidar com adversidades nos faz maiores, nos prepara para a vida e estar preparado para mudanças nos faz mais flexíveis, mas vou ser muito sincera: como é difícil lidar com um desejo frustrado e com fracassos, sejam pequenos ou grandes, esperados ou totalmente inusitados e leva um certo tempo para processarmos.

 
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Já conhecia a fama do Denali sobre a dificuldade da escalada, o frio excessivo, a necessidade de carregar todo o seu equipamento e bagagem sem ajuda externa e ele não deixou a desejar em nenhum desses quesitos.

É de longe a montanha mais difícil que eu já escalei, pois, junta todos esses motivos acima e mais alguns: são subidas imensas, íngremes e muito difíceis, contando com uma escalada em corda fixa de uns 300 metros que é extremamente cansativa, dias que não terminam, já que nessa época do ano não escurece nunca no Alasca, temperaturas de -18º em vários momentos e dias, horas e horas carregando em torno de 40 kg, 13 dias sem banho...

Definitivamente não é um passeio no parque e foi muito bem definido por um conhecido que disse que nessa montanha todo dia é um cume e ele foi muito feliz nessa colocação, já que todo dia é um desafio novo a ser enfrentado, todo dia é uma superação imensa e todo dia nos colocamos à prova, extraindo forças do nosso objetivo e encontrando razões em nossa meta.

     
     

Tudo isso é difícil, mas totalmente passível de ser enfrentado quando estamos num grupo harmônico, com pessoas que comungam da mesma energia e que entendem a montanha da mesma maneira, encontrando forças no sonho que cada um tem. E nesse ponto tenho ainda mais certeza da sorte que sempre tive em todas as expedições até aqui, onde encontrei pessoas especiais, grupos interessantíssimos, pessoas capazes de motivar umas às outras e o quanto isso sempre me ajudou a alcançar os meus cumes.

Dessa vez seria diferente e me vi em um grupo desunido, onde o interesse pessoal suplantou e muito o espírito de união que essas viagens sempre despertaram. Cada passo foi difícil, sofrido e cada dia eu precisava ter muito forte dentro de mim a certeza de que eu era capaz e que estava fazendo exatamente o que era meu desejo, mas um grupo fraco e aqui não falo de fraqueza física, mas de interação, parceria, capacidade de entendimento, pode pôr tudo a perder e impedir a realização de um sonho. Me vi impotente diante da decisão de quem deveria estar junto e acreditar no potencial alheio e me impediu de continuar, apesar de todo envolvimento emocional e financeiro que uma expedição à alta montanha contempla.

     
     

Cheguei perto dos 5.000 metros, faltando apenas 2 dias para a chegada ao cume, ou seja, já tinha vencido muitas batalhas, talvez as mais difíceis e era capaz, sim, de chegar lá em cima mais uma vez, já que tinha me proposto a esse desafio, estava determinada e ciente do que sou capaz. Mas, dessa vez fui impedida, o que só deixou ainda mais forte o desejo de conquistar essa montanha tão desafiadora e provar para mim mesma, que quem desenha meu destino sou eu e mais ninguém, quem diz qual caminho devo seguir é o meu desejo e ninguém será capaz de me fazer desistir dos meus sonhos... nunca.

Dessa vez tive que dar um passo atrás e recuar para evitar maiores estresses, mas a montanha continua lá e aqui dentro de mim essa vontade imensa de chegar no alto e vislumbrar as mais belas imagens que se pode ter.

Nessas adversidades também se aprende muito sobre tolerância, exercita-se a paciência e entende-se a necessidade da contemplação e do vazio. O que vai ficar marcada para sempre também é a beleza majestosa dessas montanhas eternamente brancas, em contraste com um azul límpido e uma atmosfera mágica e onírica que nos envolve por completo e que nos preenche por dias a fio.

     
     

 

McKinley, I’ll be back. We’ll will see soon again. Thank you for while!
Sabrina Paschoal

 
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